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Evélio Muñoz: a estranha alegria de quem escolhe a penitência

Sociedade Ler mais tarde

Antigo paraquedista colombiano, lidera em Santo André de Vagos uma nova comunidade de frades “mínimos”.

Quase 200 anos depois da sua extinção em território nacional, a Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula regressa a Portugal, estabelecendo-se na Diocese de Aveiro, mais propriamente, em Santo André de Vagos, onde iniciou, a 16 de fevereiro, uma nova comunidade religiosa. Para já, o núcleo é composto apenas por dois membros – o padre Evélio de Jesus Muñoz, de 59 anos, antigo paraquedista das Forças Armadas colombianas e psicólogo clínico, e o postulante Ludam Perpétuo Utrabo, que deixou a carreira de piloto de helicópteros para abraçar a vida religiosa – que chegam à região com uma proposta de vida radical: viver como se fosse sempre Quaresma.

A história da vocação de Evélio Muñoz começa cedo, “aos cinco anos”. “Lembro-me que já dizia à minha mãe que queria ser sacerdote”, recorda. A fé entrou-lhe na vida pela rotina – a missa dominical às sete da manhã, imposta pela mãe –, mas também pela inquietação que essa prática lhe despertava. “Perguntava-me porque é que ela nunca faltava. Só entendi quando fui adulto”, confessa. A morte da mãe, quando Evélio tinha apenas 12 anos, precipitou uma decisão que viria a moldar o seu percurso. Contra a vontade da família, ingressa no seminário menor. “Numa madrugada, peguei nas poucas coisas que tinha e fugi de casa. Viajei 800 quilómetros com a ajuda do meu pároco que me deu dinheiro para o bilhete de autocarro, e lá fiquei cinco anos, quase escondido, até completar 18 anos”.

Ao atingir a maioridade, foi chamado para o serviço militar na aeronáutica colombiana, onde chegou a ser paraquedista. Ainda assim, a vocação mantém-se intacta: “O desejo de ser sacerdote nunca passou”.

Depois de deixar a vida militar, o encontro com um sacerdote que promovia vocações para a Ordem dos Mínimos levou-o a reconsiderar o caminho religioso. Segue então para Itália, onde realiza formação filosófica e teológica e se especializa como psicólogo clínico. A adesão ao carisma da ordem, centrado na humildade e na penitência, não foi imediatamente fácil de aceitar. “No início assustava”, admite. Com o tempo, porém, encontrou sentido nesse estilo de vida, inspirado na radicalidade evangélica defendida por São Francisco de Paula. “Hoje digo que é uma espiritualidade necessária para os tempos que vivemos”.

 

Ser “mínimo” num mundo de excessos

Fundada no século XV por São Francisco de Paula, a Ordem dos Mínimos propõe uma vivência radical do Evangelho, centrada no esvaziamento de si e na primazia de Deus. Num contexto em que a visibilidade e o sucesso tendem a ser valorizados, Evélio Muñoz resume o essencial da sua vocação numa inversão dessa lógica: “Ser mínimo é fazer-se pequeno para que Deus cresça”.

Além dos votos tradicionais de pobreza, castidade e obediência, os Mínimos assumem um quarto voto: o da chamada “vida quaresmal”. Significa viver permanentemente o espírito de conversão e penitência que a Igreja celebra de forma mais intensa durante a Quaresma. Na prática, trata-se de um estilo de vida austero, orientado para a oração, a simplicidade e o desapego.

À primeira vista, a penitência pode surgir como sinónimo de privação ou sofrimento, e parecer incompatível com a alegria. O padre Evélio rejeita essa leitura. “A penitência não é imposta. Quem a abraça fá-lo livremente”, observa. A lógica é outra: abdicar para dar lugar ao essencial. “Se me privo de algo é porque quero ter espaço para algo maior. Para nós, esse valor maior é Cristo”. E é nesse movimento que situa a alegria: “A alegria nasce de viver por Cristo”.

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Uma presença nova com ambição espiritual

Numa conjuntura em que a vida religiosa enfrenta desafios de envelhecimento e falta de vocações, a pequena comunidade de Santo André já acolhe um primeiro sinal de renovação.  Ludam Perpétuo Utrabo, antigo piloto de helicópteros, decidiu abandonar uma carreira considerada bem-sucedida para ingressar na ordem. Para o sacerdote, este tipo de decisão revela a força de um chamamento interior: “Deus chama e, se não respondemos, continua a chamar-nos”. Evélio Muñoz acredita que, apesar das dificuldades, a radicalidade pode ser precisamente aquilo que atrai mesmo as gerações habituadas a outras expectativas. “É um caminho para quem busca experiências mais elevadas”, diz, citando o Evangelho de João: “Que Ele cresça e eu diminua”.

A chegada dos Mínimos a Aveiro resulta de contactos estabelecidos pelo padre Nuno Duarte Queirós com frades da ordem em Roma, ideia que acabou por ganhar forma após o interesse manifestado pelo bispo. O processo de instalação prolongou-se por cerca de dois anos até se concretizar. 

Instalados em Santo André de Vagos – onde têm sido, segundo o sacerdote, “muito bem acolhidos” –, os religiosos pretendem desenvolver sobretudo um trabalho de acompanhamento espiritual e escuta, centrado no sacramento da reconciliação e na direção espiritual. A intenção, explica o padre Evélio, é oferecer um espaço de reflexão e conversão num tempo que considera marcado por profundas mudanças culturais e espirituais.

Apesar da exigência da vida religiosa e da diminuição global de vocações, o sacerdote mantém-se confiante. “Eu rezo pelas vocações e procuro dar o melhor testemunho possível. Depois, é Deus quem chama”, afirma. Para ele, a proposta dos Mínimos continua a fazer sentido no mundo atual precisamente pela sua radicalidade: uma vida simples, centrada na fé e vivida entre penitência e alegria.

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