Dão-nos sombra fresca no verão, embelezam a paisagem, mas, mais importante do que tudo, melhoram a qualidade do ar e protegem a biodiversidade. Falamos das árvores e da sua importância para o planeta, neste dia que deve ser de festa, mas também de alerta – a 21 de março celebra-se o Dia Internacional das Florestas e o Dia Mundial da Árvore. É fundamental preservar estes ecossistemas vivos e tratar as árvores, muito particularmente as centenárias, com o devido respeito, na certeza de que esta é uma “batalha” na qual todos os cidadãos têm um papel importante, destaca Bruna R.F. Oliveira, investigadora no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro.
“Dezenas de árvores de grande porte já estão identificadas na Região de Aveiro, dispersas por parques urbanos, margens de rios e caminhos rurais, com o número a crescer graças a olhares atentos de voluntários e inventários municipais. Estas incluem exemplares com perímetros de tronco acima de 1,5 metros, medidos à altura do peito (DAP). Muitas figuram em bases públicas de arvoredo de interesse público, mas o registo é dinâmico e incompleto: estima-se que centenas permaneçam por descobrir na Região de Aveiro, escondidas em quintais familiares ou zonas húmidas da ria”, destaca a investigadora, em declarações à Aveiro Mag.
Dominam, segundo Bruna R.F. Oliveira, “espécies resilientes ao nosso clima atlântico húmido e solos aluviais: carvalhos-robinhas (Quercus robur) com troncos de 4-6 metros de circunferência e 25-30 metros de altura; sobreiros (Quercus suber) de 200-300 anos; plátanos (Platanus hispanica) em avenidas; amieiros (Alnus glutinosa) e freixos (Fraxinus angustifolia) nas galerias ripícolas; pinheiros-mansos (Pinus pinaster) e castanheiros (Castanea sativa) em matas. Dimensões típicas variam de 2 a 7 metros de perímetro, alturas de 20-35 metros e idades de 100-400 anos, qualificando-as como ‘notáveis’ pelo volume de biomassa e longevidade”.
Podemos encontrá-las em espaços como o Parque Infante D. Pedro em Aveiro (plátanos), no Parque Municipal de Alta Vila em Águeda (castanheiros e tílias), margens do Rio Vouga (amieiros) ou no Jardim Oudinot em Ílhavo (ácer e pinheiros). “São testemunhas de séculos, ancoradas onde o homem lhes deu tempo e espaço”, vinca a investigadora, que trabalha na área do restauro ecológico.
E se há verdade científica inequívoca sobre as árvores é que “quanto maiores e mais velhas, maiores os serviços que prestam”. “Armazenam até 10 vezes mais carbono por hectare que florestas jovens, atuando como sumidouros de longo prazo contra secas e vagas de calor que já sentimos na Região. Criam microhabitats únicos – cavidades para corujas e morcegos, cascas para líquenes raros –, suportando biodiversidade 50 vezes superior à de árvores jovens; infiltram 30% mais água, atenuando cheias e estabilizando margens; e refrescam o ar urbano, baixando temperaturas em 5-8°C à sombra enquanto filtram poluentes como partículas finas de tráfego. Uma única gigante equivale, em benefícios, a centenas de plantas juvenis – é a economia de escala da natureza”, frisa a investigadora do CESAM.
Não obstante toda esta importância, há ainda um longo caminho a fazer em matéria de sensibilização. “Árvores notáveis caem diariamente para urbanismo ou monoculturas, sem inventários prévios – na nossa Região, pressão imobiliária e cheias agravam perdas de 20-30% em duas décadas. O desconhecimento é o maior risco: sem mapas completos, perde-se resiliência. Precisamos de educação escolar, planos municipais de arvoredo classificado e integração em estratégias locais contra o aquecimento”, sustenta Bruna R.F. Oliveira, lembrando que “uma gigante abatida rouba décadas de serviços ecossistémicos”.
Gestos diários que fazem a diferença
Segundo frisa a investigadora, “qualquer cidadão pode mudar o destino destas guardiãs com ações simples e impactantes”. Como? “Junte-se aos embaixadores das Gigantes Verdes ou semelhante. Defenda em consultas públicas: questione abates em projetos, proponha desvios ou transplantes. Plante nativas de futuro: Quercus robur ou Fraxinus em parques/quintais/escolas, com 10 metros quadrados de espaço para crescerem gigantes. Eduque o seu círculo: com crianças, meça sombras com termómetro, conte aves na copa, valorize o verde mensurável do dia a dia”, exorta, destacando projetos de ciência cidadã como o Gigantes Verdes, aberto a quem queira participar. “Projetos colaborativos de mapeamento na região acolhem todos, sem necessidade de formação avançada. Aderir é simples: inscreva-se em sessões gratuitas online ou presenciais através de câmaras municipais ou plataformas online. Aprende a medir perímetro, altura, coordenadas e identificação básica de espécies. O registo destas árvores alimenta planos de proteção municipal, transformando os seus contributos em dados científicos valiosos”, sublinha.
Neste Dia da Árvore, Bruna R.F. Oliveira deixa uma sugestão aos leitores da Aveiro Mag. “Pare sob uma destas colunas vivas da Região de Aveiro: sinta a frescura da sombra, ouça o canto das aves que ali nidificam, abrace o tronco que guarda carbono para gerações... Não é poesia – é ciência que nos urge: proteja-as hoje, ou o tempo decidirá por si amanhã”.