João Ribeiro
Eleito do Partido Socialista para a Assembleia Municipal de Aveiro
Se a política, na sua génese helénica, se define como a busca pela Justiça Suprema e pelo Bem Comum, o espetáculo que se desenrola em Aveiro constitui a sua antítese mais flagrante. O que assistimos não é governação, é uma encenação de sobrevivência, onde os princípios são obliterados pela conveniência utilitarista e a vontade dos eleitores é tratada como um detalhe negligenciável. Dois protagonistas, um acordo de bastidores, e a confirmação de que, para estes artistas da ocasião, o poder não é um instrumento para a Justiça: é um fim em si mesmo.
A trajetória de Diogo Machado neste processo é um caso de manual sobre volatilidade axiológica. O mesmo homem que agora se mostra disponível para "flexibilizar posições" é aquele que, num passado recente, não hesitou em imputar a Luís Souto Miranda uma "cobardia política" e o deplorável ato de "pactuar com comportamentos ilegais e inaceitáveis". Como pode alguém, dotado de carácter, sentar-se à mesa com quem classificou como um político que "dá o dito por não dito" e mantém um "modo de estar inaceitável na causa pública"?
Ao ensaiar esta aliança, Machado atraiçoa diretamente quem nele votou. A promessa de que nada o iria "enredar ou manietar" dissolve-se agora numa colaboração com uma gestão que ele próprio apelidou de "estaleiro de desmandos e desvarios". O vereador que chegou ao extremo de anunciar a chamada do autarca ao Parlamento prepara-se agora para ser cúmplice da governação que denunciou. A sua crítica ao orçamento de 2026, que classificou como mera "fatura acumulada do anterior", torna-se um fardo de incoerência: vai sustentar aquilo que jurou combater.
Esta inversão de 180 graus não é pragmatismo, é uma gritante falta de carácter político. A transparência "inegociável" que proclamava foi sacrificada pela proximidade ao poder. A "coragem para mudar" tinha, afinal, a maleabilidade das conveniências de ocasião. Diogo Machado ajoelhou-se perante o poder que jurou combater, e fê-lo sem o pudor de uma explicação convincente.
Por outro lado, a conduta de Luís Souto Miranda revela um exercício centrípeto do poder, manifestamente alheio à concertação democrática. Ao conduzir negociações secretas sem o conhecimento do CDS-PP, seu parceiro de governação original, o presidente da Câmara demonstra um profundo desrespeito pela colegialidade que deveria nortear a vida em comum. O CDS-PP foi mantido na total ignorância, tendo a sua vereadora Ana Cláudia Oliveira sido forçada a demarcar-se publicamente de um caminho que não ajudou a traçar. Esta omissão deliberada é uma afronta aos aliados, mas é sobretudo uma traição aos eleitores da "Aliança com Aveiro", que votaram num projeto conjunto, e não num acordo de sobrevivência fabricado à sua revelia.
Souto Miranda ignora deliberadamente que a soberania popular não lhe outorgou maioria absoluta. O voto dos aveirenses foi uma instrução clara para uma governação escrutinada e dialogante. Ao tentar contornar o legítimo contraditório da oposição através de um conluio pós-eleitoral de gabinete, o edil sinaliza que a sua visão para Aveiro é refratária ao debate e impermeável ao compromisso plural. Comporta-se como um estratega da sobrevivência conjuntural, desprovido de lastro ético: os fins de manutenção do cargo justificam, na sua lógica, o atropelo dos aliados e o esvaziamento da vontade popular.
Souto demonstra, em suma, uma incapacidade de governar em democracia, preferindo a construção de maiorias artificiais ao exercício transparente da política como espaço de liberdade e responsabilidade.
Esta aliança de ocasião entre Machado e Souto Miranda é a negação do sublime na política. Demonstra que, para estes protagonistas, a ética é um adereço descartável e a palavra dada é apenas retórica de campanha. Ao desrespeitarem a vontade popular, os seus próprios aliados e os princípios que publicamente defenderam, ambos provam não estar à altura da nobreza da arte de governar.
O resultado é a deceção profunda de uma sociedade que vê o seu voto ser transacionado num mercado de interesses privados, onde o Bem Comum foi substituído pelo cálculo de sobrevivência. E onde os artistas da ocasião continuam, impunes, a ensaiar o próximo número.