Entre a memória do povo judeu, a história do século XX e as escolhas políticas do presente, Israel enfrenta hoje um desafio delicado: preservar o capital moral que ajudou a construir ao longo de décadas.
Há momentos em que percebemos que certas imagens do mundo começam a mudar diante dos nossos olhos. Não de um dia para o outro, mas lentamente, quase sem darmos conta.
Durante décadas, Israel ocupou um lugar singular na consciência europeia. Para muitos de nós, era impossível pensar naquele país sem recordar a longa história do povo judeu, séculos de perseguição e, sobretudo, a tragédia absoluta do século XX. O Holocausto marcou profundamente a forma como o Ocidente olhou para Israel desde a sua fundação: havia ali uma mistura de respeito, solidariedade e responsabilidade histórica.
Israel era, para muitos europeus, mais do que um Estado. Era também um símbolo: de sobrevivência, de resiliência, de reconstrução depois do abismo.
Esse sentimento coexistia com outras imagens: uma sociedade vibrante, científica e culturalmente inovadora, uma democracia pequena e complexa, rodeada por tensões regionais permanentes, um país que procurava afirmar-se no quadro das democracias ocidentais.
Durante muito tempo, essa combinação alimentou um capital moral significativo na opinião pública internacional, particularmente na Europa.
Mas a política pode transformar rapidamente aquilo que a história construiu ao longo de décadas.
Nos últimos anos, muitos observadores começaram a sentir que esse capital simbólico se está a desgastar. Não por causa da existência de Israel, um facto histórico incontornável e um direito reconhecido, nem pela memória do povo judeu, que permanece património moral da humanidade. Mas pela forma como o poder político tem sido exercido e pelas alianças que o atual governo escolheu construir.
A liderança de Benjamin Netanyahu marcou uma viragem clara no posicionamento político de Israel. A sua estratégia assentou numa lógica cada vez mais securitária, nacionalista e polarizadora, tanto no plano interno como internacional.
A relação privilegiada com Donald Trump tornou-se um dos símbolos mais evidentes dessa mudança.
Durante décadas, Israel manteve uma relação complexa mas relativamente equilibrada com os seus aliados ocidentais, incluindo a Europa. Havia divergências, naturalmente, mas também partilha de referências democráticas e de linguagem política. Essa relação assentava numa base de confiança mútua e numa certa proximidade institucional.
A aproximação explícita a Trump alterou parte dessa equação. Não apenas pelas decisões políticas concretas, mas também pelo tipo de narrativa política que passou a enquadrar a relação internacional de Israel.
Essa mudança teve consequências. Na opinião pública europeia, tradicionalmente sensível à memória histórica do povo judeu, começou a instalar-se uma crescente perplexidade. Para muitos, tornou-se mais difícil conciliar a admiração histórica por Israel com as opções políticas do seu governo.
A política internacional raramente é simples, e o Médio Oriente talvez seja uma das regiões onde essa complexidade se manifesta com maior intensidade. Israel vive num ambiente geopolítico difícil, marcado por conflitos antigos, ameaças reais e equilíbrios instáveis. Ignorar esse contexto seria injusto e intelectualmente desonesto.
Mas também é verdade que os países, tal como as pessoas, vivem de reputação moral.
Esse capital não se mede apenas em tratados, alianças militares ou capacidade económica. Mede-se também na forma como uma nação é percebida pelos outros, na coerência entre os valores proclamados e as escolhas políticas.
Durante muito tempo, Israel beneficiou de uma enorme reserva de legitimidade histórica. Essa legitimidade não desaparece de um dia para o outro e certamente não desaparece por causa de um governo ou de um líder. A história de um povo é sempre maior do que as circunstâncias políticas de um momento.
Mas as escolhas políticas contam.
Contam porque moldam a forma como os países são vistos. Porque influenciam a relação com aliados históricos. Porque podem aproximar ou afastar sociedades que durante décadas caminharam lado a lado.
Talvez seja isso que hoje se observa em muitas capitais europeias: não uma ruptura total, mas um certo afastamento emocional e político. Um desconforto crescente, difícil de traduzir em linguagem diplomática, mas cada vez mais presente na opinião pública.
Criticar um governo não é negar a história de um povo. Pelo contrário, muitas vezes nasce precisamente do respeito por essa história.
A tradição judaica, na sua profundidade cultural e espiritual, ofereceu ao mundo algumas das reflexões éticas mais marcantes da civilização ocidental. A sua história de sobrevivência perante a adversidade continua a ser uma das narrativas mais impressionantes do século XX.
Nada disso desaparece.
Mas a política contemporânea pode obscurecer, temporariamente, aquilo que a história construiu com tanto esforço.
Israel continua a ser uma sociedade extraordinária na sua diversidade, na sua vitalidade intelectual, na sua capacidade científica e cultural. Continua a ser um país central na história contemporânea e um ator incontornável no equilíbrio do Médio Oriente.
Mas também enfrenta hoje um desafio difícil: preservar o legado moral que ajudou a construir ao longo de décadas.
Porque o poder continua a contar no mundo. A segurança continuará sempre a ser uma preocupação legítima de qualquer Estado. Mas há outro recurso igualmente decisivo.
O capital moral.
Constrói-se lentamente.
E, por vezes, começa a desaparecer sem que quase se dê por isso.
Porque a história constrói reputações mas são sempre as escolhas do presente que decidem o seu futuro.