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O Ribeiro vê-se grego. Nós vemo-lo a ele…

Opinião Ler mais tarde

Diogo Soares Machado

Vereador eleito pelo Partido Chega - Câmara Municipal de Aveiro

 

 

Num artigo de opinião de há dias, João Ribeiro, ilustre desconhecido socialista cá do Burgo, invocou exaustivamente Platão para tentar apoucar-me - e ao meu carácter - e atacar um eventual acordo de governação entre o Chega Aveiro e o PSD de Aveiro no Município.

Platão!

O pai da filosofia política ocidental, o arquitecto d’A República, o pensador da natureza da Alma, da Justiça e do Estado ideal - convocado, com toda a solenidade académica que a ocasião merecia, para comentar um acordo que ainda não existe, por alguém que a esmagadora maioria dos aveirenses não saberia identificar numa lista de presenças da Assembleia Municipal. A grandiosidade do gesto, convenhamos, não passou despercebida. Valeu o esforço…

Note-se, desde já, a desonestidade do enquadramento: o que está em causa é uma eventual negociação entre dois partidos: o Chega Aveiro, terceira força política do Concelho, com mandato e legitimidade eleitoral conquistados nas urnas, e o PSD de Aveiro, vencedor das últimas Eleições Autárquicas. O Sr. Ribeiro preferiu, no entanto, personalizar o ataque, dirigindo-o à minha pessoa e ao meu carácter. Porque é sempre mais fácil atacar o indivíduo do que encarar o facto de o Chega Aveiro ser uma força política real, crescente e incontornável no panorama político aveirense - algo que o PS, segundo classificado nas últimas autárquicas e a percorrer alegremente o caminho para a irrelevância, teima em ignorar e estrebucha para aceitar.

Ao ler o arranque do artigo, confesso que fiz uma pausa. Não de admiração - de espanto: invocar Platão para atacar um eventual entendimento entre a primeira e a terceira forças políticas de Aveiro é um gesto de grandiosidade tão desproporcional que só pode ter duas explicações: ou o Ribeiro acredita genuinamente que Aveiro se assemelha a Atenas transportada dois mil e quatrocentos anos para o futuro (o que seria comovente…), ou descobriu que a profundidade filosófica é uma boa máscara para a ausência de argumentos - o que é, esse sim, um problema ético digno de nota. Mais impressionante ainda: o colapso ético que o título do dito artigo anuncia refere-se a algo que, à data do escrito, não havia ainda acontecido. Platão foi mobilizado, com urgência e aparato, para denunciar uma hipótese. A indignação, no PS, é evidentemente preventiva. E aparentemente insaciável.

Ora, Platão escreveu sobre tiranos, sobre a degeneração das formas de governo, sobre a diferença entre o político justo e o sofista que apenas aparenta sê-lo. É uma obra vasta, complexa e profundamente incómoda. Incómoda para o Sr. Ribeiro, mas sobretudo para o PS, que “governou” Aveiro entre 1996 e 2005 fazendo exactamente aquilo que agora, com a pena molhada em indignação helénica, o socialista Ribeiro condena nos outros.

O PS e Alberto Souto de Miranda chegaram à Câmara em 1996, sem maioria absoluta, e resolveram o problema aliando-se ao CDS-PP - fazendo, palavra por palavra e sem tirar nem pôr, aquilo que o Ribeiro classificou como "conluio pós-eleitoral", "maiorias artificiais" e traição à "vontade popular". No segundo mandato, em 2001, já com maioria absoluta, dispensaram os aliados. Em 2005, os aveirenses dispensaram-nos a eles, sem apelo nem agravo. E até hoje.

O método, esse, ficou: aprendido, interiorizado e praticado na escola do PS. Que o Ribeiro venha agora, com Platão debaixo do braço, denunciar como escândalo ético aquilo que o seu próprio partido ensinou é um nível de despudor que, francamente, merece uma salva de palmas. De pé.

Onde estava o Sr. Ribeiro então? Onde estava a sua pena elegante, a sua inspiração helénica, o seu horror aos "acordos de bastidores"? Estava em silêncio, evidentemente. No mais absoluto, mais revelador, mais socialista dos silêncios. O Chega Aveiro não existia em 1996, o PS sim e governava o Município, fazendo precisamente o que hoje condena. Esse pormenor, claro, não mereceu referência no artigo. Seria demasiado paradoxal, até para o Sr. Ribeiro, certo?

Mas o prodígio maior desta peça de indignação selectiva não está em Aveiro, está em Lisboa e desde 2015, quando Passos Coelho ganhou as eleições legislativas. Ganhou. O PS perdeu. António Costa perdeu. E o que fez Costa? Recusou-se a aceitar o resultado. Sentou-se com a extrema-esquerda e fabricou, a partir de uma derrota eleitoral, uma maioria parlamentar que derrubou o governo vencedor e tomou o seu lugar. Tudo em gabinetes. Tudo sem que os portugueses tivessem votado naquilo. Tudo com o entusiasmo sereno de quem descobriu que os princípios são apenas um acessório de campanha, lavável e reutilizável.

Onde estava Platão nesse dia? Onde estava o Ribeiro? Onde posso encontrar o artigo sobre o "colapso ético", os "artistas da ocasião", sobre a "negação do sublime na política"? Não estava, nem se encontra. Porque quando o PS subverte a vontade popular, a filosofia vai de férias. Regressa apenas quando os outros ganham. O Chega Aveiro, que conquistou o seu lugar nos Órgãos Autárquicos do Concelho com votos reais de aveirenses reais, merece pelo menos que a crítica que lhe é dirigida seja honesta. O artigo do Ribeiro não foi.

A Geringonça não foi "volatilidade axiológica" - essa expressão está reservada para os adversários. Foi, segundo a narrativa oficial do partido, "estabilidade", "maturidade democrática" e "sentido de responsabilidade". Traduzindo: quando o PS faz exactamente o mesmo e a partir de uma derrota, o que é ainda mais notável, chama-se pragmatismo. Quando o Chega e o PSD de Aveiro eventualmente procuram convergir em torno de políticas que buscam o bem comum, chama-se colapso ético. O dicionário socialista tem uma secção especial para estas distinções. Chama-se conveniência e está sempre actualizada. Platão, que caracterizou os sofistas ao detalhe, reconheceria o método imediatamente, estou certo. E provavelmente com um sorriso.

O artigo enfatiza, com dramaturgia esforçada e algumas lágrimas de crocodilo, que a "soberania popular não outorgou maioria absoluta" à Aliança com Aveiro. Facto verdadeiro. Mas a soberania popular outorgou a vitória a Passos Coelho em 2015 - e isso não impediu o PS de governar quatro anos com quem tinha prometido nunca governar, a partir de uma derrota que fingiu ser vitória.

E a soberania popular em Aveiro outorgou ao Chega Aveiro uma representação que o Ribeiro prefere ignorar, distorcer e vilipendiar, num exemplo de manual de falácia ad hominem. Se quer falar de desrespeito pela vontade popular, Caro Ribeiro, o exemplo mais acabado da história política recente tem o logótipo do seu partido. E não precisou de Platão para se justificar - bastou a geometria do oportunismo.

O Ribeiro usou Platão e mais umas quantas palavras esdrúxulas justapostas. Já eu, mais prosaico e do povo, termino com António Aleixo, poeta popular, semianalfabeto, mas plenamente sábio:

“P´ra mentira ser segura

E atingir profundidade,

Tem de trazer à mistura*

Qualquer coisa de verdade.”

Para a próxima, Caro Sr. Ribeiro, olhe-se ao espelho do PS antes de se pôr a escrevinhar.

 

Nota: o autor escreve ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico

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