Nos próximos dias 18 e 19 de abril, a Academia R&D leva ao palco do Teatro Aveirense o seu novo espetáculo que assume como tema central a memória e nos convida a refletir sobre a importância que a(s) memória(s) tem na nossa vida.
António Lobo Antunes, no livro “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera”, transmite-nos a importância da memória e das pessoas que perdemos mas continuam presentes nela, neste trecho final:
“... e portanto acho que vou principiar a correr na direção de um palhaço, porque foi sempre um palhaço, na direção de um pateta, porque foi sempre um pateta, na direção do meu pai porque é o meu pau, menta, pistacho, morango, ponho um chapéu na cabeça dado que a minha mãe
- Não te esqueças do chapéu
Enfio o braço no dele, respondo com uma vénia quando disser
- Vamos embora filhinha
e seguimos os dois juntos, dando às ancas e cumprimentando as pessoas, até nos dissolvermos na luz”.
Todos os anos, a Academia R&D leva a palco dois espetáculos, um dos quais mais conceptual, em que brinda os seus espetadores com um momento de beleza, arte e tempo para pensar. Este ano, a proposta da Academia R&D para o primeiro espetáculo é o tema da memória e este tema, não obstante a sua complexidade, foi acolhido e interpretado por todas as turmas, com alunos dos 3 aos 60 anos, que aceitaram o desafio da Mariana Curado de o interpretar e transmitir para o público, nas diferentes modalidades, cruzando turmas, idades, e vivências diferentes para retratar a complexidade da nossa vida e a importância que as memórias têm nela.
O conceito do espetáculo partiu de uma experiência recente na vida da fundadora da escola, bailarina, professora e coreógrafa Mariana Curado que não receou em partilhar com os seus alunos – dos mais pequeninos aos mais novos – a sua inspiração para o tema deste espetáculo. Os verdadeiros artistas não têm medo de revelar as suas fragilidades porque sabem que a arte é a melhor forma de as compreender e integrar na sua vida. A arte, nas suas mais diferentes expressões, é um veículo para compreender e partilhar as nossas vivencias e este é o tema central deste espetáculo, mas é também o reflexo do espírito que se vive na Academia, neste espaço em que se aprende a dançar, mas também onde se partilham experiências, expõem vulnerabilidades, onde os alunos se sentem em casa e onde crescem rodeados de sonhos, amizades e boas memórias.
O espetáculo que está quase a estrear no Teatro Aveirense é muito mais do que um espetáculo de dança, é um convite a parar e a refletir sobre a importância da memória na nossa vida.
Desde que nascemos, vamos acumulando memórias: um sabor que nos remete para o gelado que comíamos quando saíamos da escola, o cheiro a bolo acabado de fazer quando entrávamos em casa da avó, o toque do beijo dos pais quando se vinham despedir de nós à cama a pensar que já estávamos a dormir, as paisagens e as cores que emolduram a nossa infância ou o som das brincadeiras dos primos nas férias do verão que parecem repetir-se na nossa cabeça como se tivéssemos um búzio do mar colado ao ouvido. As memórias são essenciais para a nossa construção enquanto pessoas, são elas que fazem a ponte entre o passado, o presente e o futuro mas, por vezes, quando elas nos remetem para momentos mais duros e difíceis de recordar, temos tendência para as tentar descartar, deixando-as para trás como se fossem uma “mochila” incómoda que nos impede de avançar. Mas as memórias não são descartáveis e mesmo quando acreditamos que ficaram para trás elas agarram-se ao nosso tornozelo como se fossem uma amarra ao passado que não se quer largar, para não perdermos a ligação ao passado e o local onde estão as nossas raízes.
O que poderão ver neste espetáculo é o resultado da forma como os alunos, desde as crianças mais pequenas, com menos memórias e muito provavelmente mais felizes, até aos adolescentes, jovens e adultos, passam para a dança o espaço que as memórias ocupa nas suas vidas, a ligação que elas fazem com o passado e tudo o que estas os fazem sentir: a alegria das brincadeiras em criança, o conforto do colo dos pais ou a dureza de perder uma pessoa. Todos os alunos, antes de começarem a ensaiar as coreografias, perceberam que a vida é feita de tudo isto, de memórias felizes e de memórias tristes, de memórias simples e de momentos sem grande importância, mas também de outros mais marcantes e que a vida de cada um é o resultado de todas estas memórias e do espaço que ocupam nos nossos dias. É isto que faz com que cada um tenha uma história única e tão especial: diferentes memórias, diferentes percursos, mas todos essenciais para chegarmos à pessoa que hoje somos.
O mais inspirador deste espetáculo - e dos outros que nos anos anteriores têm assumido como conceito um tema específico - é o facto de a Academia incentivar os alunos a parar para pensar num tema, num tema que tem leituras e interpretações diferentes para cada um, mas que os faz pensar antes de dançar e trazer para a dança o resultado da sua reflexão. Mais do que uma coreografia bonita, é uma coreografia que parte da reflexão e a incorpora nos passos de dança. Este ano o tema é particularmente interessante num momento em que não conseguimos parar e isolarmo-nos do ruído em que vivemos para pensar nas nossas memórias e no espaço que elas, consciente ou inconscientemente ocupam na vida de cada um. E foi muito interessante ver que todos os alunos, naturalmente que de uma forma natural e adequada à idade, fizeram este exercício. Pararam para pensar nas suas memórias e na importância que elas tinham para cada um e, por isso, este é também o convite que a Academia R&D, ao levar este espetáculo a palco, faz a toda a comunidade: parar para pensar e refletir sobre a importância da memória, encantados pelas coreografias que vos serão apresentadas.
Este espetáculo é, por isso, um convite a parar e refletir sobre a importância das memórias, para compreender que lugar elas têm no nosso presente e que lugar lhe queremos dar no nosso futuro, sabendo que muitas vezes nos tentamos descartar das mais dolorosas, na esperança de sofrermos menos, mas na certeza de que esta não será uma tentativa bem sucedida enquanto não percebermos que são somos feitos de memórias e precisamos de compreender o seu significado para a nossa vida para nos conhecermos melhor. A nossa história individual, e coletiva, é feita de memórias e elas são essenciais para que cada um se possa assumir com a sua riqueza e singularidades únicas, num mundo e numa sociedade que teima em padronizar tudo e todos e colocar rótulos pré-definidos.
Olhar para a memória e para a importância que ela tem na nossa história individual é, de facto, um desafio, mas um desafio muito bonito e importante para que, reconhecendo a riqueza de cada história, sintamos orgulho na nossa singularidade. Este é, efetivamente, um grande desafio singular. E colocar os alunos todos a pensar sobre isso é inspirador e é isso que faz desta escola uma verdadeira Academia, na verdadeira aceção da palavra: um espaço onde além de se aprender a pensar se desafiam os alunos a refletir e a partilhar as suas experiências num espaço que é “casa” para os seus alunos, onde os afetos estão sempre presentes e que fará, com toda a certeza, parte das suas memórias mais felizes, no futuro.
Se ainda conseguirem bilhetes não percam a oportunidade de se permitirem parar e refletir sobre um tema tao importante e de fazerem as pazes com as memórias mais incómodas que tentam deixar para trás, na esperança de fazerem um caminho com mais leveza, porque é importante resgatar memórias e colocá-las no lugar certo na nossa vida. Enquanto aluna da Academia, este foi um desafio que abracei por achar que a nossa vida agitada nos dá pouco espaço para parar, silenciar ruídos e pensar no que importa, para com isso nos conhecermos melhor e percebermos a riqueza da nossa história de vida.
O espetáculo foi construído com base na ideia de uma casa onde convivem diferentes gerações, que se vão cruzando no meio dos seus horários, rotinas e afazeres diferentes, sempre a correr e com pouco espaço para parar, muito à semelhança do que acontece nas nossas casas, com a nossa família e todos aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia. Em cada faixa etária vamos encontrando problemas, dramas e dificuldades que vamos revelando aos outros (quando temos coragem para tal) em busca de ajuda para seguir em frente, na certeza que se levarmos as nossas memórias connosco, em vez de as deixarmos para trás, porque as memorias mais duras, com o tempo, tornam-se mais doces ou, pelo menos, vamos percebendo as lições que delas podemos retirar e as mais doces são sempre a força nos momentos difíceis.
Não deixem - por tudo isto e muito mais que as palavras não dizem - de assistir a este espetáculo que vos trará muito mais do que apenas bonitos momentos de dança. Traz também um convite à reflexão e uma mensagem muito bonita, porque se é verdade que a arte é a melhor forma para expressar sentimentos, este espetáculo consegue esse objetivo e com ele a Academia R&D abre os braços à comunidade, a quem convida para se juntar a si e conhecer o que inspira tantos alunos a considerar a Academia como sua “casa”!