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Ainda dentro de Abril

Opinião Ler mais tarde

Há datas que não cabem no calendário.

Podem ser assinaladas com um número, repetidas ano após ano, inscritas em discursos e cerimónias, mas, no essencial, não se deixam fixar. O 25 de Abril é uma dessas datas.

Não é apenas memória. É uma espécie de presença.

Há qualquer coisa de difícil de explicar na forma como este dia regressa sempre. Não como um acontecimento distante, fechado no passado, mas como um movimento que insiste em atravessar o tempo e chegar até nós. Talvez porque não pertence apenas à história. Pertence àquilo que ainda está por cumprir.

Crescemos a ouvir falar da madrugada, dos sinais na rádio, dos cravos nas mãos, das portas que se abriram. Crescemos com essa narrativa quase luminosa, onde tudo parece acontecer com uma clareza improvável, como se a liberdade tivesse irrompido de forma súbita, quase inevitável.

Mas, à medida que o tempo passa, percebemos que o essencial não está apenas nesse instante inaugural.

Está no que veio depois. E, sobretudo, no que continua.

A liberdade não é um momento. É uma prática.

É fácil, com o passar dos anos, transformar o 25 de Abril num lugar confortável. Um ponto de consenso, uma celebração tranquila, quase automática. Há desfiles, há músicas, há palavras repetidas, e tudo isso é importante. Mas há também um risco silencioso: o de deixarmos de sentir verdadeiramente aquilo que celebramos.

Porque a liberdade, quando deixa de ser exigente, começa a esvaziar-se.

Talvez por isso o 25 de Abril incomode, ainda. E é bom que incomode.

Incomoda quando nos obriga a olhar para as desigualdades que persistem. Quando nos confronta com as vozes que continuam por ouvir. Quando nos lembra que há direitos que, embora consagrados, não são igualmente vividos por todos.

Incomoda quando percebemos que a democracia não é um estado adquirido, mas um equilíbrio frágil, que exige atenção, cuidado e, acima de tudo, participação.

E talvez seja esse o seu maior legado: não nos deixar acomodar.

Há uma ideia que regressa frequentemente neste dia, a de que “Abril está por cumprir”. Durante muito tempo, essa frase pareceu-me excessiva, quase retórica. Hoje, olho para ela de outra forma.

Não como uma acusação, mas como um convite.

Cumprir Abril não é repetir o passado. É prolongá-lo. É traduzi-lo nas pequenas decisões, nos gestos quotidianos, na forma como nos relacionamos com os outros e com o mundo.

Está na capacidade de escutar.

Na coragem de discordar sem destruir.

Na responsabilidade de participar, mesmo quando é mais fácil ficar de fora.

Está, também, na forma como construímos comunidade, esse espaço imperfeito, mas essencial, onde a liberdade ganha sentido.

Talvez seja por isso que o 25 de Abril continua a ser um dia tão profundamente humano.

Porque fala de pessoas. De medo e de coragem. De silêncio e de palavra. De um momento em que alguém decidiu que era possível mudar e de muitos outros que, depois disso, continuam a decidir o mesmo, todos os dias.

Não é uma história fechada. Nunca será.

E talvez o mais importante seja precisamente isso: perceber que não estamos apenas a lembrar o 25 de Abril.

Estamos, de alguma forma, dentro dele.

 

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