AveiroMag AveiroMag

Magazine online generalista e de âmbito regional. A Aveiro Mag aposta em conteúdos relacionados com factos e figuras de Aveiro. Feita por, e para, aveirenses, esta é uma revista que está sempre atenta ao pulsar da região!

Aveiro Mag®

Faça parte deste projeto e anuncie aqui!

Pretendemos associar-nos a marcas que se revejam na nossa ambição e pretendam ser melhores, assim como nós. Anuncie connosco.

Como anunciar
Aveiro Mag®

Faça parte deste projeto e anuncie aqui!

Pretendemos associar-nos a marcas que se revejam na nossa ambição e pretendam ser melhores, assim como nós. Anuncie connosco.

Como anunciar

Aveiro Mag®

Avenida Dr. Lourenço Peixinho, n.º 49, 1.º Direito, Fracção J.

3800-164 Aveiro

geral@aveiromag.pt
Aveiromag

A mercearia, as lentilhas e o bife de lombo

Opinião Ler mais tarde

Diogo Soares Machado 

 

Vereador eleito pelo Partido Chega - Câmara Municipal de Aveiro

 

 

 

No passado dia 25 de Abril, Alberto Souto de Miranda publicou na sua página de Facebook um texto pequenito mas estridente.

Li-o e confesso que raramente vi tão pouco pensamento embrulhado em tanta indignação pretensamente cívica.

À boleia da celebração da Liberdade, que defende com a energia de quem se acha dono do conceito, escreve que “a madrugada não chegou hoje inteira e limpa a Aveiro”. A frase é bonita, quase poética. Pena que o que se segue seja tão prosaico: qualifica o Acordo de Governação entre PSD e Chega como “negócio de mercearia política de lesa democracia”, garante que o Chega é “anti-Abril, salazarento, racista e xenófobo” e lamenta que o Chega “abdique de criticar o poder para partilhar um pelouro de lentilhas”. Sentencia ainda, com ares requentados de tribuno republicano, que “se traem os eleitores porque esta coligação não foi a votos”. Li e cheguei à óbvia – e fácil! - conclusão de que a retórica de Alberto Souto não vem acompanhada de argumentos - sequer medíocres.

Comecemos pela traição aos eleitores. É uma acusação séria – por isso mesmo surpreendente, vinda de quem vem. O próprio Alberto Souto admitiu publicamente, durante a campanha autárquica de 2025, que governou (?) Aveiro em minoria no seu primeiro mandato, recorrendo a entendimentos com outros partidos e seus representantes – os Aveirenses com memória não selectiva lembram-se muito bem de que acordos e a quem me refiro – num modelo que, hoje, o próprio Alberto Souto expeditamente catalogaria como digno de bom merceeiro. A esses entendimentos, quem agora se indigna chamou-lhes “pragmatismo”, “responsabilidade”, “respeito pela vontade popular”. Chamou-lhes até “estabilidade”, veja-se...

Há, no entanto, um exemplo ainda mais cristalino, que Alberto Souto certamente não esqueceu, mas que prefere omitir – o acordo de incidência parlamentar que deu vida à Geringonça: em 2015, o PS de António Costa, depois de derrotado nas eleições legislativas, chegou ao poder através de um entendimento com o Bloco de Esquerda e a CDU – partidos que o próprio PS sempre classificou como radicais e irresponsáveis. Na altura, o PS e os seus acólitos aplaudiram entusiasticamente a aliança com a extrema-esquerda. Não houve “lesa democracia”, nem “mercearia política”. Houve “sentido de responsabilidade” e “estabilidade governativa”, apesar de a Geringonça nunca ter ido a votos. A diferença entre então e agora, percebemos finalmente, é apenas uma: quem assina os acordos. E alguma falta de vergonha, acrescento…

Isto dito, pergunto: se o Acordo de Governação celebrado entre o PSD e o Chega, em Aveiro, é “mercearia política”, o que terá sido a Geringonça? Um hipermercado? Com cartão de fidelização?

Depois e aproveitando o embalo, vem a acusação de que alguém “mandou às malvas os seus princípios para comprar um voto”.

Não deixa de ter graça, vinda de quem fez dos princípios matéria flexível ao longo de dois mandatos como Presidente da Câmara de Aveiro – adaptando-os, contorcendo-os e substituindo-os sempre que a conveniência política assim o exigia, numa arte que Groucho Marx imortalizou exemplarmente: “estes são os meus princípios, se não gostarem tenho outros”. O resultado dessa flexibilidade ficou devidamente registado e gravado a fogo, até hoje, nas contas do Município: uma dívida superior a 160 milhões de euros que é, ainda, lastro de peso inegável e inquestionável, hipotecando investimentos, projectos e o futuro de todo um Concelho.

Alberto Souto podia – e devia! – poupar-nos a “lição”: o seu legado fala bastante mais alto que a sua retórica de ocasião.

Quanto ao “pelouro de lentilhas”, a expressão é pitoresca, concedo, mas importa desmontar a insinuação sujita que lhe está subjacente: a de que um qualquer pelouro compra o meu silêncio e o silêncio do Chega.

Esclareço e afirmo, para que não restem dúvidas: não sou, nunca fui e não serei, homem de silêncios comprados, muito menos de princípios de ocasião. No CHEGA Aveiro continuaremos, sempre, a dizer o que pensamos e a defender Aveiro intransigentemente, com ou sem a bênção de Alberto Souto ou dos seus camaradas. Quem tem historial certificado e matéria de lentilhas sabe muito bem a quem essa carapuça serve na perfeição…

Fico, no entanto, genuinamente curioso: se, para Alberto Souto, um pelouro municipal aveirense são “lentilhas”, como deveremos classificar os sucessivos cargos com que foi brindado ao longo de uma carreira política integralmente construída à sombra do poder socialista - dois mandatos à frente da Câmara, vice-presidente da ANACOM, administrador da Caixa Geral de Depósitos, Secretário de Estado de Pedro Nuno Santos em Governo de António Costa? Bife do lombo, certamente…

O povo fica com as lentilhas; os amigos certos ficam com a carne de primeira. É caso para perguntar: onde esteve, para Alberto Souto, a liberdade, em todos esses anos de hegemonia socialista? E onde está, hoje, a coerência?

E, permita-me que lhe diga, acusar o Chega de ser “anti-Abril, salazarento, racista e xenófobo”, sem uma única linha de fundamentação, ainda que quimérica, não é argumento – é tentativa de insulto estéril.

Os autarcas do Chega foram eleitos por Aveirenses de corpo inteiro e plenos direitos, tal como os autarcas socialistas. Receberam mandatos democráticos, saídos desse mesmo 25 de Abril (e 25 de Novembro, já agora!) que invoca com tanta solenidade quanto selectividade. E exercem-nos legitimamente, tal como os autarcas socialistas, com excepção do próprio Alberto Souto, que escolheu não exercer o mandato que os Aveirenses lhe confiaram. Há piadas se fazem sozinhas e sem esforço…

Chamar “salazarento” ao voto de mais de quatro mil aveirenses é, no mínimo, uma forma curiosa de celebrar a Liberdade. Ou será que a Liberdade e a Democracia só têm valor quando produzem os resultados que Alberto Souto e os seus camaradas aprovam e validam?

A tudo isto, acresce, ainda, um facto importante que Alberto Souto escamoteia: nem o Chega, nem eu próprio tivemos, até esta data, quaisquer responsabilidades governativas, ou executivas, em Aveiro. Esta será a estreia do Partido – e a minha – nessas funções. Estreia limpa de qualquer passivo, de qualquer dívida contraída e não paga, de qualquer lastro nocivo e tóxico acumulado ao longo de anos de poder. Estreia que assumimos com a mais elevada honra e a maior das responsabilidades.

E acaba exclamando, do alto de uma petulância intelectual digna de nota, que “um voto a mais ou um voto a menos não resolve a incompetência substantiva das decisões”. A frase soa grave e profunda – o problema é que não diz rigorosamente nada.

Qual e que incompetência? Onde? Em quê? Como? É um alvitre vazio, um lugar-comum, enunciado com solenidade de epitáfio, ao jeito de desabafo despeitado. E é, também, um julgamento particularmente ousado, a roçar a bizarria, para quem deixou Aveiro com uma dívida que, ainda hoje, tem peso substancial, crítico, inegável e inquestionável nas contas do Município. E para alguém a quem os Aveirenses não quiseram à frente da nossa Câmara Municipal, pela segunda vez consecutiva.

Com tantos anos de vida pública, Alberto Souto deveria, pois, ter muito mais cautela antes de falar em incompetência alheia. E caldos de galinha, já agora…

É certo que a democracia não é uma mercearia – como Alberto Souto de Miranda pretende e presume ensinar-nos, com solenidade abrileira – mas afinal até pode ser, ao que parece, quando o balcão é gerido pelos amigos certos, os acordos são assinados pelo PS e as dívidas ficam para os outros pagarem.

Caro Alberto Souto, o 25 de Abril pertence a todos. A Liberdade também.

 

Nota: o autor escreve ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico

UA Publicidade

Deixa um comentário

O teu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.