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A vida, esse aniversário permanente

Opinião Ler mais tarde

Ontem, 14 de maio, fiz anos.

Há dias em que o calendário deixa de ser apenas uma sucessão de números e se transforma numa espécie de espelho. O dia do nosso aniversário é um desses dias. Talvez por isso, a vida me tenha parecido mais nítida, mais próxima, mais inteira. Não no sentido de estar explicada, a vida nunca se deixa explicar completamente, mas no sentido de se apresentar diante de nós com a sua estranha mistura de dádiva, mistério, perda, beleza e imperfeição.

Fazer anos é, de algum modo, escutar o tempo.

Não aquele tempo apressado dos relógios, das agendas, das obrigações, das notificações que nos interrompem a alma. Falo de outro tempo: o tempo que se acumula por dentro. O tempo das pessoas que nos tocaram. Das casas onde fomos felizes. Das ausências que ainda nos acompanham. Das palavras que ficaram por dizer. Dos abraços que chegaram no momento certo. Das escolhas que fizemos, das que adiámos, das que já não podemos mudar.

Com o passar dos anos, percebemos que a vida não é uma linha recta. É antes um caminho feito de desvios, regressos, tropeços, recomeços. Há momentos em que avançamos com a convicção de quem sabe para onde vai. E há outros em que caminhamos apenas porque é preciso continuar. Talvez seja isso a maturidade: não ter todas as respostas, mas aprender a permanecer de pé no meio das perguntas.

Quando somos mais novos, os aniversários trazem quase sempre a ideia de conquista. Mais um ano, mais uma etapa, mais um degrau. Contam-se os anos como quem soma futuro. Depois, pouco a pouco, começamos a contá-los de outra forma. Não com medo, necessariamente, mas com mais consciência. Cada aniversário lembra-nos que a vida é finita. E essa consciência, longe de ser triste, pode ser profundamente luminosa. Porque é precisamente por não durar para sempre que a vida merece ser vivida com verdade.

Talvez o sentido da vida não seja uma grande revelação. Talvez não nos espere no fim de uma estrada, como uma resposta definitiva. Talvez esteja, afinal, nas pequenas coisas que tantas vezes desvalorizamos: na mesa partilhada, no riso de um filho, na lealdade de um amigo, no silêncio de quem nos compreende, na beleza de uma manhã qualquer, no trabalho que deixa marca, no cuidado que oferecemos sem pedir nada em troca.

Com o tempo, também vamos aprendendo a distinguir o essencial do acessório. Nem sempre a tempo, é certo. Mas aprendemos. Percebemos que há ruídos que não merecem a nossa paz. Que há pressas que nos roubam o melhor dos dias. Que há vitórias demasiado vazias. Que há derrotas que, afinal, nos salvaram. Que há pessoas que são casa. E que há outras que foram apenas passagem, mas também as passagens têm o seu sentido.

Fazer anos é agradecer. Mesmo quando nem tudo foi fácil. Talvez sobretudo quando nem tudo foi fácil.

Agradecer o caminho percorrido, com as suas luzes e sombras. Agradecer os afectos que ficaram. Agradecer os que partiram deixando dentro de nós uma espécie de presença. Agradecer a possibilidade de continuar a aprender, a errar, a recomeçar. Agradecer o simples privilégio de estar aqui, neste tempo, com esta vida concreta, imperfeita e minha.

Não sei se a vida tem um sentido único. Desconfio cada vez mais das respostas absolutas. Mas acredito que vamos construindo sentidos ao longo do caminho. Quando cuidamos. Quando amamos. Quando servimos. Quando criamos. Quando somos capazes de olhar para o outro e reconhecer nele uma parte da nossa própria humanidade.

Talvez viver seja isso: transformar os dias que nos são dados em alguma coisa que valha a pena. Não necessariamente algo grandioso. Apenas algo verdadeiro.

Ontem, ao fazer anos, não pedi muito. Pedi a lucidez de continuar a reconhecer o que importa. A coragem de mudar o que tiver de ser mudado. A serenidade de aceitar o que já não depende de mim. A alegria de continuar a celebrar, mesmo quando o mundo parece pesado. E a humildade de perceber que cada novo ano não é uma posse, mas uma oferta.

A vida, afinal, é este milagre discreto que tantas vezes esquecemos: acordar, respirar, amar, perder, tentar de novo. E continuar.

Talvez cada aniversário seja apenas isso: uma pausa breve no caminho para escutar o coração e perguntar, em silêncio, que uso temos feito da vida.

E talvez a melhor resposta seja esta: viver com mais alma do que pressa, mais verdade do que aparência, mais gratidão do que queixa.

Porque fazer anos não é apenas somar tempo.

É, sobretudo, celebrar a possibilidade de ainda termos tempo por cumprir.

 

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1 Comentário(s)

tony gaiato
15 mai, 2026

mais um excelente e maravilhoso texto, deveria escrever um livro, aquele abraço meu amigo.

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