Gustavo Silva Alves
Vogal da comissão política de secção do PSD Aveiro
Há um livro sobre gestão que vale a pena a qualquer pessoa que trabalhe com decisões em contextos complexos, Winning Now, Winning Later, que explora a forma como organizações tentam equilibrar aquilo que é urgente com aquilo que é realmente
importante no longo prazo. É o tipo de leitura que acaba por ficar na cabeça e que, inevitavelmente, ganha novos sentidos quando se acompanha o debate público e a forma como se olha para a governação no dia a dia.
A gestão autárquica local vive de um equilíbrio permanente entre a resposta ao presente e a preparação do futuro.
O debate político tende frequentemente a concentrar-se no imediato: o estado das estradas, a manutenção do espaço público, os atrasos em obras ou as dificuldades do quotidiano. São temas legítimos, relevantes e inevitáveis numa gestão municipal. Mas há uma dimensão menos visível da governação que, apesar de gerar menos impacto imediato, pode ter consequências muito mais profundas no desenvolvimento económico e institucional de uma cidade: a sua capacidade de projeção externa.
Aveiro tem vindo, nos últimos anos, a reforçar a sua presença e projeção internacional. A participação em redes europeias, a presença em fóruns ligados à inovação e cultura e o desenvolvimento de relações institucionais com outras cidades e entidades estrangeiras revelam uma estratégia consistente de posicionamento externo do município.
Essa opção não é exclusiva de Aveiro. Hoje, as cidades competem diretamente entre si por investimento, talento, empresas, eventos, financiamento europeu e notoriedade. Em muitos casos, a capacidade de uma cidade atrair oportunidades depende menos da dimensão do território e mais da sua visibilidade, reputação e integração em redes internacionais.
É precisamente neste contexto que devem ser lidas algumas das recentes deslocações internacionais do executivo municipal. A sua participação em encontros europeus ligados à cooperação cultural e territorial, nomeadamente no âmbito da Rota Europeia da Cerâmica, enquadra-se numa lógica de diplomacia urbana e valorização de ativos culturais com potencial impacto económico no médio prazo, seja através do turismo, da notoriedade externa ou da captação de projetos financiados.
A própria narrativa política da coligação Aliança com Aveiro tem assentado, desde há vários anos, numa visão de modernização e afirmação externa do município, muito associada à inovação, sustentabilidade, tecnologia e cultura. Essa visão pode ser discutida politicamente, como qualquer outra, mas dificilmente se pode negar que existe uma linha estratégica coerente na tentativa de posicionar Aveiro acima da sua escala tradicional.
A questão relevante talvez não seja se um município deve ou não apostar numa agenda internacional. Num contexto atual, provavelmente deve. A verdadeira discussão está em saber se essa estratégia produz resultados concretos e se esses resultados justificam o investimento político e institucional associado.
É também importante reconhecer que este tipo de estratégia tem uma característica própria: os seus efeitos raramente são imediatos. Relações institucionais, redes europeias, posicionamento internacional ou notoriedade territorial são investimentos de longo prazo.
Muitas vezes, os benefícios só se tornam evidentes anos mais tarde, através de novas oportunidades económicas, maior capacidade de atração de investimento ou acesso facilitado a financiamento comunitário.
Num contexto marcado por desafios urbanos visíveis no quotidiano, é natural que a aposta na projeção externa seja, por vezes, questionada no debate político local. Ainda assim, reduzir toda a dimensão internacional de um município a uma discussão sobre viagens ou presença institucional pode limitar a profundidade do debate sobre o futuro da cidade.
A competição territorial mudou. Hoje, as cidades que crescem são as que conseguem criar redes, captar atenção, atrair talento e posicionar-se nos ecossistemas certos. E isso exige presença, relacionamento institucional e visão de longo prazo.
No final, o desafio talvez esteja menos em escolher entre “tapar buracos” ou “fazer internacionalização” e mais em garantir capacidade para fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. Porque uma cidade competitiva precisa de gestão eficiente no quotidiano, mas também de ambição para o futuro.