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Francisco Mário Robalo: o engenheiro que preferiu ser palhaço e agora é artesão

Artes

“Aqui tem o seu cházinho, Faísca”, disse-lhe a jovem que trouxe à mesa o nosso pedido na tarde em que Francisco Mário Robalo, de visita à cidade, se encontrou com a Aveiro Mag para dois dedos de conversa. Naquela esplanada, na praça 14 de julho, em Aveiro, a cadeira funda disfarçava-lhe o porte imponente, mas nada conseguia esconder o sorriso com que agradeceu a entrega. Também nós sorrimos ao percebermos que o “cházinho” dourado era, na verdade, um blended malt escocês de aroma suave. Mário apareceu vestido de um negro discreto, bem diferente da indumentária feérica e colorida com a qual os aveirenses (e não só) se habituaram a vê-lo. De cada vez que pinta o rosto, põe o chapéu de coco, calça as luvas de mágico, as meias listradas e o laço gigante que lhe adorna o pescoço, Francisco Mário Robalo dá lugar ao palhaço Mário Faísca. É assim há mais de três décadas e, no que depender do artista, assim será por muitos mais anos.

A alcunha “Faísca” é ainda mais antiga que a personagem. Nascido na freguesia lisboeta de Campolide, Francisco Mário teve as suas primeiras experiências enquanto ator no Grupo Cénico da Carris, mas só mais tarde, por volta dos 15 anos, é que envereda pelo “teatro a sério”. O jovem, que jogava basquetebol no Campolide Atlético Clube, começa a colaborar com o grupo de teatro amador daquela associação. Lembra-se de ajudar a levar a palco a peça “Fulgor e Morte”, de Joaquín Murieta, e, claro, o espetáculo “Vida do grande D. Quixote de La Mancha e do gordo Sancho Pança”, de António José da Silva, distinguido com o prémio de melhor espetáculo amador do ano pela Casa da Imprensa. Já depois de Francisco Mário ter descido ao Teatro Ádóque, no Martim Moniz, onde haveria de se estrear como ator na revista “A Grande Cegada”, em 1976, o Grupo de Campolide mudar-se-ia para Almada, dando lugar à Companhia de Teatro de Almada, hoje, Teatro Municipal Joaquim Benite, em memória do seu fundador, o homem a quem o palhaço deve a alcunha pela qual todos o conhecem. Em Campolide, Francisco Mário era técnico de luz. O grupo confiava-lhe uma importantíssima função, naqueles tempos em que, a cada antestreia, as companhias eram visitadas pela censura e só um jogo de luzes devidamente cronometrado podia camuflar as falas mais polémicas. Acontece que, numa dessas ocasiões, Francisco Mário ter-se-á distraído nas suas anotações, falhando o momento em que deveria ter alterado o projetor que incidia sobre os atores. “Aflito, criei um curto-circuito... Pum! E ficou tudo às escuras”. O susto terá feito Joaquim Benite saltar do lugar, exclamando “Faísca!” e não mais o nome se descolou de Francisco Mário. “A partir daí, fiquei o Faísca”, evoca, com uma gargalhada, completando com um ajuizado “E, felizmente, nesse dia, ninguém foi preso”.

Quando se lhe pergunta sobre a sua infância, Francisco Mário recorda o pai, trabalhador da Carris, e a mãe, porteira, “pessoas caladas e humildes”, as aventuras com os escuteiros, aos quais se juntou para se escapar da Mocidade Portuguesa e com os quais se apaixonou pela vida na natureza, e ainda o filme “9 Rapazes e um cão”, de 1964. A trama da longa-metragem de Constantino Esteves, passada nas ruas da “sua” Campolide, em Lisboa, marcou-lhe os primeiros anos de vida. Com argumento de Aníbal Nazaré e Paulo da Fonseca, o filme é protagonizado por Alves da Costa, o chefe da guarda, Leónia Mendes, a viúva Cristina, e Pereira Neto, no papel do pequeno Pedrito. Isto, claro, sem esquecer o Farrusco, um pastor alemão do campo de instrução de cães da GNR. “Eu fazia de um dos rapazes”, avança Francisco Mário. “9 Rapazes e um cão” conta uma história que, sem fugir às tendências de elogio da pobreza próprias do regime da época, trata de temas como a honestidade, o caráter, a solidariedade e o companheirismo, valores que ajudaram a fundar a personalidade de Francisco Mário. Na tela – tal como na vida – “jogávamos todos à bola no meio da rua e, num chuto mal calculado, um de nós parte o vidro da mercearia”. As crianças mobilizam-se espontaneamente para ajudar na despesa do vidro, prescindindo de uma quantia que tinham vindo a angariar com outros propósitos, e o gesto altruísta comove a professora primária que garante o valor em falta. “Afinal, o Pedrito não podia pagar o vidro sozinho”, recorda, a propósito de um dos episódios do enredo. “Foi neste ambiente que cresci”.

Quando o Teatro Ádóque é encerrado, em meados dos anos oitenta, por vontade do então autarca lisboeta, Francisco Mário abandona os palcos para se dedicar aos estudos, formando-se em engenharia eletrotécnica. “Estava a começar a constituir família e decidi ir ganhar uns tostões”, conta. Alguns anos depois, porém, numa altura em que estava a morar em Leiria, ainda antes de vir viver para Aveiro, as saudades dos palcos, a ânsia de aplausos, a necessidade de deslumbre e a sede de sorrisos falaram mais alto e o ex-ator não tem outro remédio senão seguir o seu instinto e vontade. Nasce, então, o palhaço Mário Faísca.

Nos seus espetáculos, Mário Faísca mistura momentos de poesia, mímicas engraçadas, danças desastradas e truques de ilusionismo capazes de deixar qualquer um de boca aberta. Inspirado nos legados de Charles Chaplin e do russo Oleg Popov, entende que, além de “entreter” e de “fazer rir”, a missão de um palhaço pode muito bem passar por “comover”, “desafiar”, “emocionar” ou, mesmo que de uma forma presumivelmente infantil, “ajudar a despertar consciências”.

Mário já é Faísca há mais de 30 anos e, à medida que se acumulam, as histórias vão-se perdendo na memória dos anos em que ocorreram, dos espaços que lhes serviram de palco e dos rostos que tiveram como protagonistas. Em sala ou nas ruas, já fez espetáculos para crianças e para adultos, já animou grupos de seniores e proporcionou vivências marcantes a jovens carenciados, com limitações físicas ou deficiências intelectuais. Ainda assim, de acordo com o próprio, as melhores experiências que já viveu como palhaço tiveram lugar na ala pediátrica do Hospital de Aveiro. Uma vez por semana, Mário Faísca marcava presença, visitando as crianças internadas cama a cama. “Lembro-me de um menino que tinha partido uma perna e, apesar do incentivo dos médicos e dos pais, que até lhe tinham comprado uma canadiana especial, estava desanimado e recusava tentar levantar-se”, conta Faísca. “Nesse dia, foi logo o primeiro! Puxo conversa com ele, assino-lhe o gesso, peço para auscultá-lo e passo-lhe a receita: ‘Quanto te levantares, vais ali ao espelho e sorris. É melhor que um comprimido’. A princípio, a mãe desconfiou – ‘Só me faltava agora o palhaço’, terá pensado a progenitora –, mas eu continuei: ‘E quando tirares o gesso, não o deixes aqui. Leva-o para casa, enche-o de terra e planta uma árvore. Sempre que receberes amigos pedes para eles assinarem o gesso como o Faísca fez’. Ele concordou e eu despedi-me para ir visitar as outras crianças internadas...”. “Reação do puto: sai da cama, pega na canadiana e acompanha-me no resto da visita”, recorda, com os olhos a brilhar.

É tão fácil associar-se a figura do palhaço ao riso, à alegria e à boa disposição que, por vezes, é comum esquecermo-nos que, por trás das roupas excêntricas, da maquilhagem carregada e daquela propensão desajeitada, inocente e despreocupada, há seres humanos. Com problemas de seres humanos, preocupações de seres humanos, angústias de seres humanos. “Um palhaço chora muitas vezes”, admite Francisco Mário, algo surpreendido pela ousadia da pergunta. “Quando estou triste, ao fazer a minha maquilhagem ao espelho, tendo a não carregar tanto no risco. Há truques para pintar os olhos e a boca que nos ajudam a disfarçar sorrisos mesmo naqueles dias em que não nos apetece dá-los. Há traços estratégicos que nos abrem o rosto”, desvenda.

É nesse frágil espetro entre a lágrima que teima em esconder-se e a gargalhada que se esforça por se exibir que habita a alma do palhaço. Quando o palco é ofício, é-o nos dias bons e nos dias maus. E “o espetáculo tem de continuar”, como escrevera Brian May para a voz do expirante Freddie Mercury.

A pedra de gelo que definhava no copo dançava valsas de cada vez que Francisco Mário o levava à boca para mais um gole de Cutty Sark. Só no decorrer da conversa com a Aveiro Mag, perdeu-se a conta ao número de pessoas que passaram e lhe acenaram, já para não falar daquelas que nos interromperam – envergonhada, mas resolutamente – para um cumprimento mais demorado. Parece não haver na cidade quem, mesmo descaracterizado, não conheça Mário Faísca. E uma coisa é certa: aqueles que o conhecem tratam-no com carinho e simpatia.

Quando chegou a Aveiro, há perto de 25 anos, um amigo aveirense ter-lhe-á deixado o alerta: “Aveiro é terra madrasta”, profetizando que só dali a sete anos é que Francisco Mário poderia ter certezas quando ao facto de a cidade o ter realmente acolhido como um dos seus. Sete anos passaram e mais sete e mais sete. De vez em quando, o palhaço ainda recorda dessas palavras, não deixando de reforçar a convicção de que Aveiro, com os seus traumas, vícios e fragilidades, é a cidade à qual pode chamar casa.

Quando, na primavera de 2020, a crise pandémica se impôs sem aviso prévio, o setor da cultura parou. “De um dia para o outro, todos os meus espetáculos foram cancelados. Fiquei maluco!”, confessa, emocionado. “Não chegava a doença, que se espalhava por todos os lados, não chegava termos as nossas liberdades suspensas, e ainda tivemos de lidar com comportamentos inexplicáveis, histerias, oportunismo”, recorda. Francisco Mário teve necessidade de se refugiar no interior do país e o destino escolhido foi a vila albicastrense de Proença-a-Nova. Mas se, por um lado, a distância física ajudava a acalmar inquietações, por outro, não era suficiente para fazer esquecer os anseios que por cá deixara. Foi ao observar a natureza que, no seu ritmo próprio, continuava a renovar-se, aparentemente alheia ao descalabre que a humanidade vivia, que Francisco Mário conseguiu distrair-se. Dedicou-se a uma arte nunca antes experimentada, começando a produzir peças de artesanato em madeira. No princípio, utilizou ramos de cerejeira, logo a seguir, virou-se para os pedaços de limoeiro e, à medida que as estações iam passando, aproveitaria igualmente peças de oliveira, retalhos de videira, bocados de figueira e fragmentos de sobreiro. No fundo, um pouco de tudo o que os lavradores iam dispensando a cada poda sazonal.

Francisco Mário nunca tinha trabalhado com madeiras. Aliás, é à medida que vai vendendo algumas peças que consegue equipar-se com as ferramentas certas para o ofício. Nestas coisas, não há melhor estratégia publicitária que o “passa-a-palavra”. Amigo conta a amigo e, num ápice, começaram a aparecer cada vez mais pedidos, sugestões para novas peças e desafios aliciantes. Francisco Mário nunca quis “massificar” a produção, mas quando o município de Proença-a-Nova o convida para participar numa mostra local, expondo o seu trabalho como artesão, sentiu a necessidade de arranjar um nome. “Não podia associar o nome Faísca a este novo ofício. Mário Faísca é o palhaço. Apesar de, até àquele momento, eu nunca ter trabalhado com madeiras, o meu avô foi um grande marceneiro. Fazia rodas para carroças. É bem provável que, de alguma forma, esta arte me esteja no sangue”, considera. “Em memória dele e do meu pai , escolhi associar a este projeto o nome ‘Mário Robalo’”.

Mário talha artigos utilitários, como suportes para cálices e garrafas, tábuas rotativas para servir queijos ou enchidos, molduras para fotografias ou encostos para livros, mas também crucifixos, bases para velas e outras peças decorativas, algumas delas, com desenhos de Hélder Bandarra gravados na madeira. A passar alguns dias em Aveiro, já diz estar “deserto para voltar e começar a trabalhar noutras ideias que tenho na cabeça. Gostava de esculpir uma peça em pedra em formato de livro para a campa da minha mãe”, partilha.

A sombra tomara conta da calçada de nós direitos e, à mesa, já se via o fundo ao copo. Chegara a derradeira altura para se falar do futuro. Que não haja dúvidas: “Há que conciliar os dois projetos”, assegura Francisco Mário. Faísca e Robalo terão de aprender a viver em conjunto; palhaço e artesão passarão a somar as suas artes, subtraindo distâncias e dividindo o tempo, na certeza que a felicidade e realização pessoal de Francisco Mário só poderá multiplicar.

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