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Henrique Portovedo, a música enquanto veículo de disrupção

Artes

Conhecido, sobretudo, enquanto saxofonista, Henrique Portovedo tem vindo a traçar percursos paralelos no universo da música, multiplicando-se em papéis que tornam difícil uma catalogação. Hoje, vê-se como “um artista sonoro, com um background instrumental (…), também dedicado à composição, à direção e à programação” artísticas.

Natural de Anadia, tem uma carreira internacional enquanto solista em saxofone e assume a direção artística do Ensemble 23 Milhas e da Orquestra Filarmónica Gafanhense, a coordenação do Grupo de Performance e Criação do INET-md e do PRR no que toca à música na Universidade de Aveiro. É também professor universitário, papel em que procura “centrar os alunos fora de todo o ruído que a panóplia de oferta” implica e imprimir neles a importância de conhecer em profundidade tudo aquilo que já foi feito.

No espectro mais pessoal, é “um progressista”. “Alguém profundamente inquieto”, que, não apenas através da arte musical, mas também de uma curiosidade nata, mostra ter uma “capacidade autotélica” de se “ir renovando”, procurando que os conteúdos que cria tenham uma implicação social.

Num percurso em que soma diferentes papéis e inúmeras distinções a nível nacional e internacional, Henrique assume haver um traço comum. Os contornos técnicos de hoje não serão os mesmos daqueles com que se revestem os seus trabalhos iniciais, é certo, mas em todos os seus projetos é palpável “um misto da música enquanto ciência, ou seja, enquanto processo de investigação, e da exploração sonora, que nunca se compadeceram com qualquer intuito comercial”, partilha.

Um percurso não planeado

Hoje com 39 anos, Henrique recorda os seus primeiros passos no universo musical afirmando não ter “uma história romântica para contar”. O seu avô era, de facto, aficionado de música, sobretudo de instrumentos de sopro, e frequentador da cultura das bandas filarmónicas. Ainda muito jovem, Henrique foi, naturalmente, incentivado a ter aulas de música e encontrou nelas “satisfação”, o que o fez disponível para regressar, de todas as vezes.

A carreira artística nunca foi, porém, o plano inicial. “Estava vocacionado para outras humanidades”, conta, mostrando particular paixão pelo estudo da Filosofia e interesse pelo Direito, Relações Internacionais e Ciências Políticas enquanto possíveis áreas profissionais. Acontece, no entanto, que começou a sentir que “haveria uma certa autenticidade pessoal que se poderia perder em detrimento dessas atividades profissionais”. "Lembro-me perfeitamente de ser essa a questão”, partilha: “não me queria ter de moldar em termos de reação emocional a determinada área profissional”, tendo encontrado, nas Artes, “uma área em que podemos ser mais nós próprios, em estado cru e não tão socialmente moldados”.

Fotografia: Pedro Porfírio

Passou por instituições como o Conservatório de Música de Águeda e o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Aveiro, dando continuidade ao seu percurso académico na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE) e no Conservatório de Amesterdão (Conservatorium van Amsterdam). Regressado a Portugal, foi convidado a integrar a Orquestra Praça da Alegria, da RTP Porto, experiência que considera ter sido “uma das escolas mais importantes”. “Estava em placo todos os dias”, conta. “Viviam-se reações espontâneas”.

Terminado esse ciclo – estando a aprendizagem ali completa –, fez-se à Trinity College of Music, London, para um Mestrado em Performance, seguindo-se um segundo Mestrado em Ensino de Música, na Universidade de Aveiro, e um Doutoramento com a Universidade Católica Portuguesa que, envolvendo outras instituições de ensino, o fez mover-se entre três países durante quatro anos: Portugal, Alemanha (ZKM Karlsruhe) e EUA (University of California Santa Barbara).

Disrupção em tempos acelerados

Desde as suas primeiras produções, até ainda em ambiente escolar, até hoje, há um traço comum no trabalho de Henrique Portovedo: “há sempre uma perspetiva de contemplação”, partilha. Em cada projeto, existe um certo “estado de latência”, “uma narrativa que tem um desenvolvimento interior lento”. “Houve sempre uma naturalidade em colocar elementos lentos e de desconforto. Muitas vezes, até coisas feias” – isto é, “a que o senso comum pode atribuir esta qualidade/adjetivo” –, mas “o feio”, clarifica, “quando exposto de forma prolongada, começa a adquirir beleza e, portanto, eu jogo muito com esta exploração”. No fundo, “trata-se de jogar com diferentes níveis de perceção”, explica, “ou seja, são exercícios com o próprio público; da forma como se poderá ou não sentir”.

As suas inquietações políticas e sociais podem não se traduzir em criações de carácter abertamente crítico, mas é refletido nelas um “estado de espírito” que “é sempre político”. É exemplo o último trabalho que realizou com o Ensemble 23 Milhas, um processo de criação colaborativo com vários criadores. “Num tempo de aceleração, alguém ficar a olhar para uma imagem que não é estática, mas que também não tem movimento, que fica no intermédio quase de latência, de pulsar, (…) causa disrupção, causa desconforto”.

Um multiplicar de papéis

Enquanto saxofonista, Henrique é regularmente convidado para ministrar masterclasses e realizar recitais a solo em alguns dos mais prestigiantes festivais e conservatórios superiores, como o Real Conservatorio Superior de Musica de Madrid, Conservatoire Royal de Bruxelles, Trinity Laban Conservatoire of Music & Dance, Hochschule fur Musik Karlsruhe e Conservatori Giuseppe Verdi di Milano, entre outros. Em território nacional, multiplicam-se também as colaborações, sendo exemplos o Sond'Ar-teElectric Ensemble, o ensemble da Associação Portuguesa de Compositores e a Orquestra Sinfónica da Casa da Música.

Fotografia: Nelson D'Aires

Tendo sido distinguido com inúmeros prémios, Henrique Portovedo destaca dois de carácter nacional, que refere terem sido particularmente “motivadores”: o Prémio Jovens Criadores pelo Instituto Português de Artes e Ideias, com que foi distinguido com o projeto Sound of Shadows, e o Prémio do Centro Nacional de Cultura na área da música.

O acumular de papéis pode fazer com que tenha “uma consciência mais completa de todos os processos”, partilha. A experiência enquanto instrumentista pode ter influência na composição, por exemplo, explica, mas, quando se encontra a desenvolver um papel, seja ele de instrumentista, compositor ou maestro, Henrique alheia-se dos restantes. “Não tenho na cabeça nem na memória os outros papéis, ou seja, , quando estou a dirigir estou profundamente concentrado e nem me lembro que sou saxofonista”.

Desafios no presente

Enquanto docente, e em formação contínua, Henrique aponta dois principais desafios nos dias de hoje.

O primeiro prende-se com a dimensão da cultura digital e eletrónica que hoje se vive e o imenso acesso à informação, “que é incomparável àquele que existia”. “Tem a ver com o conseguir centrar os alunos fora de todo o ruído que esta panóplia de oferta” implica. “É difícil gerir isso e, portanto, é sobretudo necessário da nossa parte, enquanto docentes, sermos muito organizados e resilientes em fazer notar que é preciso estreitar, muitas vezes, as possibilidades que temos, sob pena de ficarmos completamente perdidos sem conseguir avançar”.

Um outro desafio tem por base a existência de “um discurso de inovação constante”, que revela “uma profunda ignorância dos próprios agentes que estão constantemente a querer fazer-se passar por inovadores ou revolucionários, quando, na verdade, estão apenas a expor um desconhecimento tremendo daquilo que já foi feito e que é o conhecimento histórico e até filosófico. Este é o desafio enquanto docente: fazer com que os alunos não caiam nestas teias de facilitismo; de acharem que estão a fazer qualquer coisa que realmente é muito inovadora. Pode acontecer (…), mas, para o podermos afirmar, temos de ter um conhecimento da história, daquilo que fazemos, muitíssimo profundo”, reflete.

Fotografia: João Roldão

Um novo ciclo

Em 2023, após um período de remarcação de atividades que, devido à pandemia, ficaram latentes, iniciar-se-á, “de certa forma, um novo ciclo”. Já com concertos marcados em várias geografias, “a esta distância”, partilha, tudo indica que, pelo menos nos primeiros meses do ano, estará mais ativo no papel de saxofonista.

Fotografia de capa: Pedro Porfírio

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