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Bruno dos Reis: “existe uma grande lacuna em formação artística na cidade"

Artes

Chegou ao GrETUA – Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro em 2015, como encenador. Cerca de dois anos depois, estava a assumir a direção artística do grupo que é cada vez mais uma referência no panorama cultural da região. Aos 40 anos, o GrETUA revigorou-se e um dos rostos desse “lifting” é precisamente o seu. Natural de Aveiro, Bruno dos Reis é um homem do teatro, um espírito inquieto no que toca a pensar a cultura e, por isso, defende a necessidade de se pensar num crescimento sustentado. E é exatamente essa a linha de pensamento que segue ao abordar a candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura 2027.

Bruno dos Reis, 36 anos, estudou Línguas e Estudos Editoriais, em Aveiro, e Cinema, em Lisboa, mas é o teatro que tem assumido o papel principal da sua carreira. Estava na Efémero quando, em 2015, foi chamado a encenar um espetáculo no GrETUA, longe de imaginar que daí até à direção artística era um salto – na verdade dois, uma vez que ainda passou pela coordenação da formação antes de assumir um cargo mais diretivo.

Na altura, o GrETUA sofria dos males que sofriam outros grupos de teatro universitários. “Tiveram muita força até aos anos 90, porque ainda não existia ensino superior de teatro. Então, quem queria entrar no teatro, enquanto estudante universitário, frequentava estes grupos académicos. A partir do momento em que o ensino superior passou a ter formação em teatro, a função dos grupos académicos passa a ser muito mais reduzida”, introduz, em entrevista à Aveiro Mag.

Bruno dos Reis foi, assim, desafiado a inverter o quadro e a dar novo fôlego ao GrETUA. Já lá vão dois anos e os primeiros atos desta “peça” têm sido marcados por momentos de vitória. “Correu muito melhor do que eu esperava. Achava que seria fogo para durar alguns meses ou um ano e, de repente, passados dois anos as coisas não param de crescer”, avalia, sem esconder que “houve vários fatores que contribuíram para isso”.

“A entrada de pessoas muito especiais para o GrETUA, a mudança dos órgãos da reitoria e a existência de uma vice-reitora chamada Alexandra Queirós, a própria mudança que começou a surgir nas últimas direções da associação académica, a mudança do próprio discurso político da cidade – de repente a cultura é a palavra que está mais em voga”, enumera. Em pouco tempo, o GrETUA “deixa de ser um armazém ao abandono e atrai os melhores formadores do país, passa a fazer parte do circuito de música nacional alternativo, oferece programação regular em vários domínios artísticos, e mete 300 pessoas dentro de uma sala de espetáculos”, acrescenta.

“Estamos a tentar passar do 8 para o 80”

A pergunta tornou-se inevitável depois de Bruno dos Reis notar que a cultura passou a estar na moda em Aveiro: isso é positivo ou também tem um lado negativo? “Tem muito mais lados positivos do que negativos, mas há algumas coisas que são indissociáveis. Uma delas é que me parece que estamos a tentar passar do 8 para o 80. Exemplo: quando estamos a falar de uma residência artística, estamos ainda a falar de formação de conhecimento de uma forma artificial. Chamamos um criador de fora que lega alguma coisa na cidade, sim, mas que depois se vai embora. Isto não é uma criação orgânica de conhecimento. É uma forma boa de inflacionar aquilo que é a atividade cultural da cidade e a sua produção de conhecimento, mas não basta”, comenta.

Na opinião do diretor artístico do GrETUA, “trabalhar na cultura passa, muitas vezes, por escolher a pior opção financeira a curto prazo. E parece-me que há evidentemente algumas estratégias que não são benéficas para a cultura, nem a curto, nem a médio ou longo prazo. São estratégias comerciais. E isso é que é mais perigoso”, sustenta, em entrevista à Aveiro Mag.

Bruno dos Reis considera que “existe uma grande lacuna em formação artística na cidade de Aveiro”. “E nós, GrETUA, também temos a nossa responsabilidade nisso. Porque é que no ano passado só tivemos um curso de formação e algum conteúdo formativo nas celebrações dos nossos 40 anos? Porque é que não tivemos mais? Este ano já teremos duas formações no primeiro trimestre e não contamos não ter formações em qualquer trimestre que seja, e em várias áreas”, faz questão de assegurar.

Também falta, na sua opinião, “uma visão para concertação entre certos operadores culturais”. Pior do que isso, “começa a surgir uma competição entre alguns operadores, que é profundamente tóxica, hipócrita e desonesta”, critica, lavando daí as suas mãos. “Felizmente, o GrETUA tem estado, e quer continuar a estar, à margem disso”, vinca. Ainda que entenda que “não é possível dois espaços com objectivos comerciais associados à cultura não competirem de alguma forma”, Bruno dos Reis repara que “há formas mais dignas e outras menos dignas de o fazer”.

Corrida a Capital Europeia da Cultura

Aveiro 2027. A referência à candidatura a Capital Europeia da Cultura é ouvida (e lida) vezes sem conta, na cidade e na região. Perguntamos ao diretor artístico do GrETUA se imagina Aveiro a alcançar esse patamar e a atingir o estatuto já atribuído a Lisboa, Porto e Guimarães. “Se o conseguirmos através de um crescimento artificial que não é profícuo para o futuro, como se conseguiu o Euro para o futebol, prefiro que não sejamos. Íamos ficar com monstros a nível de infraestruturas, que não conseguiríamos justificar nem humanamente nem financeiramente. E depois íamos ter o reverso da medalha, que seria, mais uma vez, a descapitalização da cultura durante uma quantidade infinda de anos porque não se soube trabalhar a cultura nem ler os seus resultados”, alerta.

Caso Aveiro consiga chegar a Capital Europeia da Cultura “através de um desenvolvimento sustentável a longos anos, aí sim, seria de aplaudir”, contrapõe, com o devido alerta: “Apesar de tudo há, para mim, preocupações maiores em Portugal do que a capital europeia da cultura”. O motivo? “Estamos a atravessar uma bolha imobiliária enorme, gigante, como se calhar não vimos em 2008. E é inevitável que ela estoure”, adverte, partindo do princípio “basilar” de que “também é cultura as pessoas terem um local para viver e conseguirem viver bem”.

“Não é racional que uma cidade que tem o desenvolvimento que tem Aveiro, com um salário mínimo de 600 euros, possuir as rendas médias de um T0 a 450 euros”, repara. “Não se pode viver desta forma Não nos adianta estar a discutir se estamos a receber os melhores jovens criadores portugueses, quando há jovens que querem trabalhar com o GrETUA e não conseguem encontrar um quarto para viver em Aveiro”, critica.

É um problema que não é exclusivo de Aveiro, é verdade, mas Bruno dos Reis considera que esta não é uma matéria exclusiva do governo central. “Também passa pelo poder local e isto algo que tem de estar na agenda do dia, assim como o ambiente, a educação e a cultura”. “E não vejo as pessoas a falar sobre isto. Vejo as pessoas a falar sobre o parque subterrâneo do Rossio. Percebo, mas há um monstro, um elefante na sala de que pura e simplesmente não se fala”, avisa.

Seja Aveiro ou não Capital Europeia da Cultura em 2027, há algo que é dado como certo: “o GrETUA vai continuar a trabalhar para que a cidade, os seus jovens e os seus estudantes, tenham cada vez mais propostas culturais de qualidade”. No grupo que “quando ainda não se falava em Capital Europeia 2027 já coproduzia um festival chamado Aveiroshima 2027”, a aposta passa por trabalhar “cada vez mais para a cultura e cada vez mais de uma forma mais saudável”.

* Créditos das fotos: Marcelo Baptista (cores) e Pedro Sottomayor (preto e branco)
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