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Porfírio Soares Machado e a eloquência desportiva. O meu avô faria 100 anos

Opinião

Não era alto. O tronco muito maior que as pernas faziam com que, à mesa, fosse maior do que qualquer outro.

E como gostava de estar à mesa. Mastigante nato, mas também tertuliano, e feroz adepto de dominó aos pontos e do Beira Mar.

O meu avô treinava quem quisesse aprender na Ria de Aveiro, mas sobretudo ao Vasco Naia, Atita e Batista, e depois no “tanque”, nome dado à piscina do Beira Mar ainda a céu aberto.

“Aterraram-na” e nunca os perdoou. A melhor resposta que encontrou foi construir um Pavilhão, com outros 11 notáveis, e dezenas de anónimos. E assim nasceu o Pavilhão do Alboi.

Treinador de natação, dirigente do Atletismo e do Andebol, fez do desporto a sua causa maior.

Heróis da minha juventude, o Hélder, o Manel Ângelo, o Toi Vieira e o Januário, sempre me falaram dele com um misto de saudosismo e admiração.

Nunca foi consensual e ainda bem. A unanimidade aborrece-me.

O Porfírio Soares Machado faria hoje 100 anos. E se fosse vivo, tenho a certeza de uma coisa: existiriam piscinas e o Beira Mar teria um Pavilhão. Se não no Alboi… onde ele imaginasse.

O herói que nunca conheci era o meu avô.

Excerto de uma entrevista que deu ao Jornal do Beira Mar em 1961, entre tantas outras ao Litoral, pela caneta do ilustre Diamantino Dias ou João Sarabando.

- Gostávamos que nos dissesse se vê impossibilidade em o Beira-Mar renascer para a natação, se poderemos vir a marcar presença destacada na modalidade, como outrora aconteceu.

 - Materialmente não vejo impossibilidades, pois sei bem que os nadadores abundam pela cidade e nada me custa a crer que viessem, a maior parte deles, a representar o nosso Clube. Mas sem piscinas, sem termos, efectivamente, onde treinar já não vejo viabilidades de concretização de um sonho que nos é muito querido. O Beira–Mar se quer marcar a sua presença nos campeonatos regionais desta época, tem de ir treinar às piscinas do Luso e Bustos. Para além da despesa extraordinária que isso nos acarreta, nunca poderemos ter uma preparação eficiente, visto que nesta época do ano as piscinas estão quase sempre superlotadas. É um problema gravíssimo esta falta de piscinas na nossa cidade. E ainda o que nos vai valendo são as ajudas amigas da “Comissão Pró Beira-Mar”. Se não fosse ela, acredite, que a esta hora, uma modalidade que tem de existir em todos os tempos na vida do Clube, já tinha deixado de existir.

 - Mas o sr. Porfírio Machado, para além de todas essas contrariedades, deve ter algumas esperanças nos campeonatos que se vão efectuar em Águeda, não é verdade?

 - Mentiria se dissesse o contrário. Por natureza sou um optimista, o que não quer dizer que não veja quando não temos possibilidades de alcançar qualquer vitória. Mas para estes campeonatos eu parto com as esperanças de que o nosso Vasco Naia, que está a voltar à forma que tanto o notabilizou, possa arrancar duas vitórias para as nossas cores. Também tenho mais dois ou três elementos que poderão “botar” figura.

E com um misto de saudade e de resignação, o nosso entrevistado-exclama:

 - Todos estes nadadores são das escolas que se estavam a forjar na nossa querida piscina…

 - O senhor falou da “nossa piscina”. Sabêmo-la quase toda coberta de entulho, dando lugar a uma possível edificação de um “Parque Desportivo do Beira-Mar”. Quer dizer que jamais teremos um recinto natatório, onde possamos forjar campeões beiramarenses?!

 - Ainda havemos de ter novamente uma piscina, mas desta vez uma piscina com grandes requisitos técnicos e sanitários. Esta é a promessa de pessoas de responsabilidade da vida citadina. E nós não descansaremos enquanto isso não se concretizar. Que importa que uma piscina desse teor possa custar 500 contos, quando verificamos que as gentes do Beira-Mar jamais nos abandonaram, porque gostam, porque adoram, como bons filhos de Aveiro, a natação? Com comparticipações das entidades oficiais e com as ajudas que advirão das campanhas que se irão fazer, estamos certos que dentro de um futuro, que não virá longe, poderemos voltar de novo a marcar presença airosa dentro da natação nacional. Temos de reavivar a natação portuguesa, quase única e simplesmente circunscrita aos campeões do Algés e Dafundo. O Beira-Mar pode ser o único que lhes trave a marcha vitoriosa…

Dava gosto ouvir o Porfírio Machado. O calor, o entusiasmo das suas palavras contagiava-nos, dando-nos a certeza plena de que o Beira-Mar tem dentro dos seus quadros directivos pessoas de forte envergadura realizativa e que pugnam verdadeira  e entusiasticamente pelo seu prestígio.

 - Mas enquanto não se tiver essa piscina os nossos nadadores não poderão ir treinando-se nas águas da ria, como outrora fizeram tantos dos nossos campeões?

  - Não meu caro amigo – respondeu-lhe peremptóriamente o dedicado seccionista do nosso clube. – Nos tempos que correm, em face das marcas que se estão a fazer, não podemos admitir um trabalho destes que está condenado ao mais perfeito malogro. Treinos na ria? Mas isso não passa apenas de puro exibicionismo, sem qualquer valor desportivo!...

Lá fora, sentados na esplanada do esplêndido café citadino, estavam à espera do seu treinador, os pupilos de Porfírio Machado. Era forçoso que puséssemos termo à conversa que com aprazimento vínhamos tendo. Assim, fizemos a derradeira pergunta ao nosso amável interlocutor, que era o oferecimento pleno das nossas colunas a qualquer iniciativa da secção que ele comandava, ao mesmo tempo que as oferecíamos igualmente para que dissesse o que achasse por bem.

Já que me é dada esta oportunidade no magnífico jornal do nosso Clube, apelo publicamente para os Directores do Beira-Mar a fim de que, sempre que as possibilidades financeiras do Clube o permitam, apoiem devidamente as nossas secções pobres.

 

E, rodeado de meia dúzia de nadadores, lá foi no seu automóvel, rumo ao Luso, o dedicado e incansável dirigente da natação do Beira-Mar.

Jornal “O Beira-Mar”  - 18-8-961

 

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