Chego à fala com Daniel Maia por intermédio da associação Ribalta, que existe, na sua própria descrição, para “promover a cultura cigana e a igualdade de género nas comunidades ciganas”. Este jovem de 19 anos é músico e estudante na Universidade de Aveiro. Encontro-me com ele no café Convívio, onde chega sorridente, mas nervoso. “É a primeira vez que dou uma entrevista”, diz. Durante uma hora fala-me da vida a partir da sua condição de cigano – e de como é a relação, nem sempre fácil, com o outro mundo para lá da sua comunidade.
Nasceste onde? Onde é que foi a tua infância?
Eu nasci mesmo aqui em Aveiro. E cresci até aos cinco anos nas Barrocas, depois mudei-me para o Griné. Lá tem muita família do meu pai e tudo o mais. A partir daí fiquei sempre lá.
O Griné é um bairro estigmatizado aqui em Aveiro. Como foi viver lá?
Acho que tive uma infância muito bonita. Com os meus amigos… Saíamos para a rua para jogar à bola, escondidas, polícias e ladrões... Tive uma infância muito bonita.
O facto de seres cigano ajuda a definir quem tu és ou é uma característica que não tem importância nenhuma?
Tem. Tem toda a importância. Eu sinto muito orgulho em ser quem sou. Muito orgulho mesmo. Orgulho por, mesmo sendo cigano, conseguir conquistar o que conquisto. Ou seja, conseguir progredir na vida, mesmo tendo de lidar com os dois mundos, que são dois mundos completamente diferentes. Completamente. E consigo tanto lidar com a minha família, com os meus primos, com os meus amigos, e ao mesmo tempo com o resto da sociedade.
Dizes que são dois mundos diferentes. Mas há comunicação entre eles?
Há comunicação, mas os valores e os costumes são diferentes e por isso é que são dois mundos diferentes. Mas há muita comunicação entre os dois mundos e hoje em dia as coisas acho que estão a modernizar-se um bocado. Mas ainda assim… Como é que eu vou dizer? Aquela coisa que faz definir que somos ciganos, não é? Essa cultura ainda está muito interiorizada e muito enraizada. Eu não acho isso mau, acho isso muito bom, mas acho que lidar com o mundo exterior também é muito bom. Eu posso ser quem eu sou, mas lidar com o outro mundo.
Mas tu sentiste resistências da tua família, dos teus amigos, nessa aproximação, digamos assim, a esse tal outro mundo?
Não, os meus pais sempre me apoiaram a estudar, sempre quiseram que eu prosseguisse os estudos e que eu me formasse. Acho que o sonho dos meus pais é que eu tirasse a licenciatura e entrasse para a universidade. Mas tenho muitos amigos que perguntam o que é a universidade e para que serve. Eles perguntam-me muito isso, muitos não percebem o porquê de ainda continuar a estudar. Mas eu gosto, é o que eu gosto mesmo.
Tu achas que a tua comunidade é muito fechada sobre si própria?
Diria que não. Lá está: nós temos as nossas raízes, os nossos costumes, mas não é fechada de todo.
Como é que achas que as pessoas de fora olham para os ciganos? Ainda com desconfiança?
Sim. Eu agora tendo a não dizer muito que sou de etnia cigana porque já me aconteceram muitos episódios de racismo e discriminação por dizer que sou cigano. E até mesmo bocas que foram muito desnecessárias. E então eu prefiro ficar assim.
É uma defesa.
Sim.
Queres-me dar um exemplo de uma agressão que tenhas sofrido pelo facto de seres cigano?
Uma vez fui fazer um concerto nos Açores e fui com uma orquestra. E um dos membros da orquestra começou a gozar comigo e a fazer piadas racistas. E foi um bocado mal. Hoje em dia damo-nos bem, mas naquela altura foi muito complicado.
Isso marcou-te?
Sim, marcou-me. Não foi a primeira vez, mas foi a que melhor me lembro.
Tens uma ligação à música desde sempre?
Sim, sim.
Como é que nasceu essa ligação?
O meu pai achava que a música ia fazer bem para desenvolver os conhecimentos da matemática e tudo mais. Então decidiu colocar-me na música. Eu comecei pela guitarra clássica. Não me dei muito bem, então fui para o Conservatório aqui de Aveiro.
Que idade tinhas?
Por volta de seis, sete anos. Para nós, ciganos, a viola é a guitarra. Ou seja, eu entrei no Conservatório e pedi para tocar viola. Só que me deram uma viola de arco para as mãos. E eu fiquei um bocado “o que é que se está a passar?” E o professor dizia-me “agora toca assim”, porque eu estava sempre a puxá-la para baixo.
E agora a pergunta de um ignorante: o que é uma viola de arco?
Uma viola de arco é tipo um violino, um pouquinho maior. Toca-se na mesma posição, mas com o arco. É mais grave e tem um som completamente diferente.
Portanto tu ias para tocar guitarra e acabaste a tocar viola de arco. Que é o que tu tocas ainda hoje…
Ainda hoje, sim.
E tocas outros instrumentos ou dedicas-te só mesmo à viola de arco?
Acho que no nível em que estou devo dedicar-me somente à viola de arco. Mas já me dediquei a outros instrumentos. Eu toco guitarra, mas não consigo muito bem com a mão direita. Ou seja, não consigo fazer acordes e tudo mais. A mão esquerda está muito bem por causa da viola. Mas fazer certas coisas não consigo, só mesmo bilhar. Depois aprendi piano durante dois anos. Nós no Conservatório temos um instrumento secundário, no 11º ano. E é sempre um instrumento harmónico - guitarra, piano, cravo e órgão. Temos que escolher entre os quatro. Eu escolhi o piano, que é o mais básico e o mais popular.
Na tua família havia já alguém que fizesse música, que tocasse algum instrumento?
Guitarra. Nós costumamos muito apanhar uma guitarra e começar a tocar e cantar.
Música cigana?
Sim, sim. Fora dessa música, ninguém.
E tu tocas música cigana?
Consigo tocar. Consigo apanhar a viola e tocar essas coisas. Mas a minha especialidade mesmo é música clássica.
Então tu entraste para a universidade e sempre foste incentivado pelos teus pais. Era também isso que tu querias?
Sim.
E como é que foi a entrada na universidade? Foi fácil?
Foi. Já não me lembro em que lugar entrei, mas se não foi em primeiro foi em segundo.
Sempre foste um bom aluno?
Sim, sim. Eu acabei o meu recital do 12º ano com 20.
Uau. Fizeste a escola onde?
A escola primária fiz nas Barrocas. E tenho muito boas memórias de lá. O campo da areia e tudo o mais. Depois fui para João Afonso e no 7º ano fui para a Mário Sacramento.
O teu percurso escolar foi tranquilo?
Mais ou menos. Tive algumas rixas.
Mas por seres conflituoso, tu?
Não sei muito bem como dizer isto... Havia um certo bullying e uma certa discriminação, porque eu era gordinho e também era cigano. Ou seja, duas coisas ao mesmo tempo. E eu acabava por ficar um bocado nervoso e aconteciam conflitos. Numa das vezes, lembro-me que a minha mãe foi chamada à escola e a diretora diz-lhe “ah, pois, vocês ciganos são sempre a mesma coisa, não é?” Foi marcante para mim. O rapaz provoca e depois a culpa é sempre do cigano. Mas são águas passadas. E depois na Mário Sacramento correu tudo perfeitamente bem.
Tu és um caso de certa maneira raro na tua comunidade, no sentido em que não é muito comum, e corrige-me se estiver enganado, haver ciganos que vão tão longe nos estudos, que entram na universidade? Não é assim tão comum ainda, pois não?
Não, mas está-se a tornar. Eu tenho ido aos encontros do Bruno [da associação Ribalta] e vejo muita ciganada, como se costuma dizer, que está a estudar. Estudam Direito, estudam Medicina… E eu fico “uau”. Não estava nada à espera disso, pensei que fosse mesmo um dos únicos, mas agora percebo que não, que há muita gente, muitos rapazes da minha idade, que está a estudar e a prosseguir os estudos e a fazer a vida deles, não é?
Mas sobretudo rapazes ou não só?
Não, também raparigas.
Achas que isso é um sinal de uma certa evolução da vossa comunidade? Vês isso como positivo?
Completamente. Nós também temos que evoluir. Eu não vejo mal em evoluir, mas continuar com as raízes. É só essa a questão. Porque eu tenho mesmo muito orgulho das minhas raízes, de quem eu sou. A evolução é muito importante, mas com as raízes.