Os aveirenses mais atentos já se cruzaram com as suas publicações nas redes sociais. Mais de 2.000 já o seguem com toda a atenção e contam as horas até que seja publicada nova sátira à política aveirense. Apresenta-se como “O Tiozão de Aveiro” e tem feito do humor uma arma para alertar consciências. A Aveiro Mag quis saber mais sobre este homem ou mulher, respeitando o seu direito ao anonimato. Aqui fica a entrevista – através de perguntas e respostas escritas - ao “Tiozão de Aveiro”.
Tudo começou com “um perfil anónimo que misturava sátira com elegância. Hoje talvez já não seja só isso: mais de 30% do que publico vem de seguidores — muitos sem qualquer ligação à política — que não aceitam a desculpa de que ‘as coisas são assim mesmo’”, escreve, antes de começar a responder às questões enviadas pela nossa redação.
“O que começou como um alter ego está a tornar-se num ponto de encontro de opiniões e onde se expõe o que outros preferem varrer para debaixo do tapete.
Não quero substituir ninguém. Gostava apenas de lembrar que quem decide só pode ser melhor se nós, enquanto cidadãos, formos mais exigentes.
E se para isso for preciso ferir alguns egos, que seja — desde que o resultado sejam líderes mais lúcidos e focados no interesse público, não no pessoal.
Se o ego saísse da equação política, a maioria das decisões seria diferente: decisões puras, pelo bem comum.
Mas como o ego nunca sai, resta calibrá-lo.
Porque quando passa o limite do aceitável, o poder deixa de servir a cidade… e passa a servir apenas quem o segura”, sustenta.
1. Quem é o Tiozão? Um aveirense? Político ou ex-político? O que podemos saber sobre si?
Posso começar por garantir que não sou o Ribau — embora, se fosse, seria uma reviravolta deliciosa. Imagine só: um ajuste de contas em modo retaliação política, depois do que o PSD fez ao meu… quer dizer, ao legado dele.
Sou apenas um aveirense atento — e muito impaciente — que percebeu que rir é muito mais saudável do que gritar sozinho para a televisão.
Se sou político? Se fosse, já teria prometido responder a esta pergunta “para o ano” e depois nunca mais me lembrava.
A minha identidade não é o ponto. O ponto é que qualquer pessoa, com um teclado e uma dose de lucidez, pode fazer o mesmo que eu… mas eu cheguei primeiro.
Porque às vezes, as vozes mais úteis não precisam de crachá para serem ouvidas — precisam apenas de coragem, de humor e de zero paciência para a mediocridade.
2. O que o levou a criar este perfil/alter ego?
A crença de que, quando a política começa a falar sozinha, alguém tem de interromper a conversa.
A sátira funciona como um megafone — não para gritar mais alto, mas para fazer com que quem manda comece a ouvir.
A minha cara não importa. O que importa é a mensagem.
Porque, se a cidade está nas mãos de poucos, é melhor que esses poucos saibam que estamos todos a olhar… e a rir.
3. O nome Tiozão tem por base um certo paternalismo ou é apenas uma sátira aos “tios” e “tias” burgueses?
O nome é homenagem e provocação.
Homenagem aos “tios” e “tias” que sabem tudo — do futuro de Aveiro à última obra na rotunda — enquanto resolvem o mundo na esplanada, entre um galão e uma torrada.
Provocação, porque cresci a ouvir muitas dessas conversas… e sei bem que, por trás dos óculos de ler, há sempre quem ache que o apelido lhe dá razão automática.
O Tiozão é também um piscar de olho àquela pseudo-nata aveirense — as tais famílias que se julgam mais do que são, um fenómeno tão particular que, por vezes, parece que Aveiro é a capital nacional da importância pessoal. É um grupo que vive com a convicção de que “antigamente é que era bom” e que se deve proteger entre si, não vá a plebe encontrar a porta aberta.
Talvez por isso estejamos agora a assistir a dois irmãos a disputar a cidade… algo tão raro quanto digno de registo.
O Tiozão é isso: um de dentro, que fala de dentro… mas que decidiu escrever para que toda a cidade possa rir junta — até mesmo à custa dos seus.
4. Em poucas semanas, conseguiu merecer a atenção de quase 2.000 seguidores. Acha que os aveirenses estavam ávidos de uma voz crítica e mordaz?
Não sei se estavam ávidos… mas estavam, seguramente, mal servidos.
O discurso político em Aveiro anda mais preocupado em não magoar suscetibilidades do que em dizer algo que valha a pena ouvir.
Eu limitei-me a acrescentar picante ao prato — porque uma cidade sem tempero fica insossa.
Hoje, mais de 30% dos posts do Tiozão já vêm de sugestões dos seguidores — muitos nem sequer ligados à política. O que começou como uma voz está a tornar-se o eco de muitos.
Recebo muito mais mensagens privadas do que comentários públicos. Isso diz-me que há uma consciência coletiva que existe… mas que ainda fala em sussurros, como quem tem medo que o vizinho ouça.
Quando uma voz passa a ser de todos, deixa de ser opinião e passa a ser consciência coletiva.
5. Sente que o anonimato lhe permite uma dose extra de liberdade no comentário político?
Claro.
O anonimato é como o avental da minha avó: protege das nódoas e dos respingos… mas o sabor do prato continua todo lá.
E aqui, o prato é servido quente, picante e com aquele travo que fica na memória.
O anonimato não tem a ver com coragem — é a forma mais pura de liberdade.
Porque, sem rosto para bajular ou inimigo para enfrentar, sobra apenas a verdade nua.
Se muitos políticos votassem assim nas propostas, o mundo não seria só diferente… provavelmente seria muito mais honesto.
6. No seu entender, nesta campanha, em Aveiro, a piada fez-se sozinha com dois irmãos a concorrerem ao mesmo lugar?
A piada fez-se sozinha, servida num prato de prata… herdado, polido e pousado no centro da mesa.
Dois ramos da mesma árvore a disputar a mesma cadeira é o tipo de enredo que dispensava guionistas — porque a vida, quando quer, escreve ironias que nem a ficção ousaria.
Há campanhas que se apresentam como planos para o futuro, mas que acabam por revelar-se capítulos de uma história muito mais íntima. E quando isso acontece, a cidade deixa de ser o objetivo e passa a ser apenas o cenário — um pano de fundo que sustenta personagens mais empenhadas no próprio lugar à mesa do que no menu que dela se serve.
O mais intrigante é que, por vezes, os protagonistas são os últimos a perceber o teatro em que atuam. E nós, a plateia, ficamos com aquela sensação agridoce: estamos a assistir a um momento raro de política… ou ao prolongamento silencioso de um jantar de família onde já ninguém pede sobremesa.