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Rui Dias: “A sociedade ajudou-me a ser o que sou. Tenho a obrigação de devolver”

Política Ler mais tarde

As prioridades do presidente da câmara de Ílhavo para os primeiros 100 dias de mandato e a visão para o futuro do município.

Afonso Ré Lau

Recém-empossado, Rui Dias arranca o mandato com um plano de ação claro e medidas imediatas para pôr em marcha a mudança que prometeu aos ilhavenses. Com um programa assente em anos temáticos e propostas-âncora, o novo presidente da câmara municipal de Ílhavo quer disciplinar o estacionamento nas praias, lançar uma aplicação para reportar incidentes em tempo real, criar parques arborizados em cada freguesia e colocar no terreno o “Roteirómetro”, que permitirá acompanhar a execução do programa. Em entrevista à Aveiro Mag, detalha as prioridades que marcarão este início de governação – da educação ao associativismo, da valorização social à identidade cultural – e explica como pretende transformar intenções em ações concretas logo nos primeiros 100 dias.

 

O Rui Dias é licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e abriu, em 1990, o primeiro escritório de advocacia em Ílhavo. Que importância teve esse passo para si e para a sua relação com a comunidade local?

Casei em 1990, a minha esposa era de Ílhavo, e acabei por fazer aquilo que muitos maridos fazem, que é irem para a terra das mulheres. Eu sou de Matosinhos e, nessa altura, tinha concorrido para a Exponor. Havia três lugares para juristas e eu fui selecionado para entrar. Tinha tudo pensado para ir para lá. Ia ganhar três vezes mais do que o que ganhava na altura, nos Serviços Sociais da Universidade. Mas o meu patrono, o Dr. António Luzio Vaz – que foi como um pai para mim –chamou-me a atenção para algo essencial: se eu aceitasse aquele emprego, ficava preso ao dinheiro e às condições que me ia proporcionar e dificilmente teria coragem para crescer como advogado.

Ele tinha contactos no Conselho Superior da Magistratura, sabia que ia abrir o novo tribunal em Ílhavo e incentivou-me a instalar-me aqui: metade da semana no meu escritório novo, metade a trabalhar com ele. E foi assim que me tornei o primeiro advogado com escritório em Ílhavo. Tinha 25 anos e era o mais antigo da comarca quando esta abriu. Como era um tipo desembaraçado, tornei-me presidente da delegação da Ordem dos Advogados, cargo que exerci durante 16 anos.

Sempre tive este espírito de participação na vida associativa. Quando vim para cá, fomos viver para a Barra. Ajudei a criar a AAPB – Associação dos Amigos da Praia da Barra – com o intuito de resolver os dois principais problemas daquela população na altura: não havia multibanco – ao fim de semana, quando aquilo enchia de carros, nós não conseguíamos sair da Barra para ir levantar dinheiro e tínhamos de ir ao café trocar um cheque. Hoje parece uma realidade longínqua, mas era assim – e não havia farmácia.

Depois nasceram os miúdos e fui presidente da Associação de Pais. Eu fui sempre aluno bolseiro, a sociedade ajudou-me muito a ser quem sou, e eu acredito mesmo que devemos devolver à comunidade aquilo que ela nos dá. Há muitas formas de o fazer. Tenho várias formas mais reservadas, que não tenho de tornar públicas, em que procuro ajudar quem precisa. De forma mais pública, é muito através das associações: estando nos órgãos sociais, assumindo presidências, ajudando a desbloquear burocracias, a resolver problemas. Sinto que essa é a minha obrigação: retribuir. 


Quando é que começa a vida política? 

Ao vir morar para cá, sem conhecer ninguém, um dos meus primeiros amigos foi o José Agostinho Ribau Esteves. Ele era amigo da minha mulher. E havia também o Jorge Ratola, que é agora presidente da câmara de Espinho, que também era amigo da minha esposa. Quando, em 1993, o PSD perdeu a câmara, começou um debate interno no partido para perceber quem ia “ao jogo” em 1997, nas eleições autárquicas seguintes. A questão era: ia a “velha guarda”, liderada pelo Dr. Rocha Galante, uma geração de gente muito válida, ou ia uma geração mais nova, liderada pelo José Agostinho [Ribau Esteves]? Na altura, não havia limitação de mandatos e o Zé dizia, e bem, que quem fosse eleito a seguir poderia ficar na câmara vários anos. Se a geração mais jovem não avançasse naquele momento, provavelmente nunca mais avançaria. 

Fiz o mandato de 1997-2001 na Assembleia Municipal – fazia parte da mesa liderada pelo Capitão Adriano Nordeste – e fui chefe de gabinete do presidente da câmara no mandato seguinte. Tínhamos uma relação muito próxima – e ainda temos. Mas isso obrigou-me a suspender o exercício da minha atividade profissional. Eu estava numa fase muito boa e isso prejudicou-me um bocado. Mais tarde, continuei como assessor jurídico, primeiro, com o José Agostinho [Ribau Esteves] e, mais tarde, também com o Fernando Caçoilo. Continuava a ter uma relação próxima com o presidente, as funções práticas eram praticamente as mesmas, mas formalmente passei a ser assessor jurídico.

 

Além dessas funções de chefe de gabinete e de assessor jurídico, também exerceu cargos de destaque no PSD local, distrital e nacional. Que aprendizagens leva dessas experiências para a liderança do município?

Acho que uma mais-valia fundamental é o conhecimento profundo que temos do tecido associativo e das dinâmicas de funcionamento de várias áreas da atividade da comunidade: desporto, educação, ação social, cultura. Isso dá-nos uma bagagem muito grande. Por um lado, conhecemos bem as atividades que cada um desenvolve. Por outro, conhecemos os problemas que cada um tem. E sabemos quem são os principais atores em cada segmento da atividade que se cruza com o funcionamento de uma câmara municipal.

Quando chegamos a esta fase da vida – alguns até acham que sou velho demais (risos) – trazemos uma mochila cheia de conhecimentos, contactos e relações que enriquecem muito o nosso desempenho enquanto autarcas. A bagagem de conhecimentos que tenho hoje é completamente diferente daquela que tinha aos 30 anos, quando “não percebia nada disto”.

O relacionamento de um autarca com o tecido associativo é diferente se ele próprio foi dirigente associativo ou não. É como na magistratura: os juízes que já foram advogados relacionam-se de forma diferente com os advogados. Há afinidade, há conhecimento, há tolerância maior, há mais disponibilidade para compreender os problemas de quem está do outro lado.

 

Após décadas de envolvimento associativo e político, o que o levou a dar este passo e candidatar-se à presidência da câmara agora? Do ponto de vista pessoal, o que pesou mais?

É, de facto, uma decisão profundamente pessoal. É, de facto, uma decisão pessoal. Nestas eleições foi eleito um presidente de Câmara com 28 anos - Raquel Lourenço, em Sobral de Monte Agraço. O José Agostinho [Ribau Esteves], em 1997, foi eleito com 30. É uma questão de opção de vida.

Eu não quis fazer da política a minha vida. Porquê? Porque, se assim fosse, ficaria demasiado condicionado. Se associasse a minha vida profissional à vida política, ficaria amarrado a essa atividade para o resto da vida. Cresceria, evidenciar-me-ia, distinguir-me-ia, e depois era convidado para outras coisas a que não poderia dizer que não. E, nesse processo todo, perderia a relação com a minha atividade profissional. Se estivesse dez anos afastados da profissão, seria muito difícil retomar. As coisas evoluem muito, e se não acompanharmos, ficamos irremediavelmente para trás.

Sempre entendi: “Eu não quero que a minha vida seja feita da política”. Acho que a política é uma atividade nobre, de servir os outros, não de nos servirmos dela.

Depois, tinha outro problema: a minha vida familiar sempre esteve muito condicionada pelo facto de eu ser, como dizem os meus amigos do peito, um “estrangeiro”. Sou o primeiro não-ilhavense a tomar conta da Câmara de Ílhavo. Todos os outros eram indígenas (risos). É verdade. Isso foi um argumento utilizado na campanha pelos meus adversários. Valia tudo, menos tirar olhos.

Eu sou natural de Matosinhos, a minha família está lá. A minha mãe tem 90 anos, os meus irmãos têm a vida deles. Estão a 90 quilómetros daqui. Os meus sogros morreram cedo. Não tinha retaguarda familiar. Lá em casa tínhamos de tomar conta uns dos outros. Eu não podia pedir à minha mulher que não ficasse constipada porque tinha de levar os filhos à escola, enquanto eu andava na política. E nós sabemos como é a nossa vida, sobretudo os imprevistos. O que podemos prever ainda se controla; o que não podemos prever, não dominamos.

Sempre entendi que, podendo, um autarca deve chegar à presidência numa fase mais madura da sua vida. As pessoas têm de ter experiência de vida. Muitas vezes não é assim. As pessoas fazem escolhas com o fígado, em vez de fazerem com o coração e com a cabeça.

 

No seu discurso de tomada de posse, definiu o mandato como uma “missão” de proximidade, escuta e serviço”, e sublinhou que espera uma oposição “esclarecida, informada e exigente”. Como imagina a relação institucional entre os vários elementos do executivo municipal, verificando-se esta situação rara de termos um ex-presidente de câmara na cadeira de vereador da oposição?

O facto de o ex-presidente estar na cadeira de vereador da oposição não me incomoda particularmente. Acho que, se as pessoas têm compromissos com a sua comunidade, devem honrá-los em qualquer lugar onde o povo as coloque. Acho muito bem, e até acho digno, que quem perde as eleições assuma os lugares que lhe foram atribuídos pelo povo. A alguns, o povo deu ordem para mandar; a outros, deu ordem para serem oposição. E ser oposição é tão nobre como governar.

O que esperamos da relação com a oposição é que seja tão saudável como a que o PSD teve quando foi oposição, no mandato liderado pelo agora vereador João Campolargo. Não espero outra coisa. É óbvio que, durante algum tempo, nos momentos iniciais, vai haver mais picardias. As pessoas ainda estão magoadas por terem perdido, e isso é natural. Mas acho que posso esperar uma relação cordial.

 

Governar sem maioria absoluta é um desafio acrescido

É, claro. Mas é o que acontece na generalidade dos municípios. Não me esqueço, por exemplo, que o agora vereador João Campolargo, antes de ser presidente de câmara, foi presidente da Junta de Freguesia de São Salvador e, na primeira vez que foi eleito, ganhou por nove votos. Eu, na altura, era presidente da Comissão Política do PSD e sofri muitas pressões, sobretudo do CDS, para impedir a governação.

Quando se formou a “geringonça” a nível nacional – o Partido Socialista tinha dado uma golpada no PSD – toda a gente estava à espera de que nós fizéssemos o mesmo na Junta de Freguesia de São Salvador - a distribuição de mandatos ficou: 6 para o PS, 6 para o PSD e 1 para o CDS. 

Mas não. Para mim, quem ganha governa, e acabou.

Eu sei que a lei está para ser alterada nesse sentido, e acho muito bem. Acho que o poder se deve esforçar por ter relações próximas com a oposição, mas a oposição não deve poder bloquear o exercício do poder. E quem está no poder, sem maioria absoluta, não pode perder demasiado tempo a negociar com a oposição sobre tudo e mais alguma coisa.

Há coisas de gestão corrente, quase de expediente, em que, às vezes, a oposição se entretém a complicar a vida de quem governa. Perdemos demasiado tempo nisso - e tempo é caro para os munícipes. Os autarcas, não sendo bem pagos, custam dinheiro, e são as peças mais bem pagas da estrutura municipal. Não podemos desperdiçar dinheiro a resolver problemas das azias, ressentimentos e mágoas da oposição. Não pode ser.

E a lei tem de ajudar. Se as pessoas não sabem comportar-se assim por si, terão de se comportar assim por força da lei.

Há hoje um movimento muito expressivo nesse sentido: quem ganha governa. Eu sou completamente apologista disso. Sempre o defendi e o exemplo do que se passou com a Junta de São Salvador é muito claro. Era eu que liderava o PSD e tínhamos ganhado todas as eleições menos essa, por 0,1%. Mas a minha perspetiva foi essa. E até já há quem me acuse de ter ajudado a criar o político João Campolargo ali.

Eu ficaria muito pior com a minha consciência se o tivesse impedido de governar.

Há quem ache que a democracia só funciona bem quando ganha. Quando perde, o povo já decide mal e a democracia funciona mal. Eu não. Acho que a democracia é o sistema em que o povo tem o governo que merece. Nas ditaduras, as pessoas têm o governo que são obrigadas a ter. Na democracia, o povo pode escolher, pode até ficar em casa, pode ir às urnas brincar aos votos – mas tem sempre a oportunidade de escolher. E a escolha do povo é sempre soberana.

Aceito com a mesma naturalidade o ganhar e o perder. Faz parte. E isto também é uma coisa que a idade nos traz: às vezes, quando somos mais novos, temos mais dificuldade em perceber isto.

 

 

No mesmo discurso, elogiou a equipa que o acompanha. Quais são, para si, as competências essenciais que essa equipa traz para concretizar o programa que apresentou aos ilhavenses?

Um dos principais eixos estratégicos do nosso projeto é a Educação. Nós achamos que uma sociedade só evolui com cidadãos bem formados, com educação, com ferramentas à disposição de todos. Ninguém deve ser impedido de ter acesso ao ensino e à formação a que tem direito por limitações financeiras. A educação é o elevador social – e tem de estar à disposição de todos.

E não falo só da educação clássica. Nós queremos olhar para isto de forma diferente. Durante a campanha já estabelecemos relações com a Universidade de Aveiro, nomeadamente com a Fábrica da Ciência Viva, e queremos desenvolver um modelo de intervenção desde o nível pré-escolar. 

Queremos também olhar com muita seriedade para o ensino profissional. O ensino convencional tem vários problemas, nomeadamente o de criar pessoas inúteis. É duro dizer isto, mas é verdade. Caminhamos para aí. Há estudos que apontam que, em 2050 – e 2050 não está assim tão longe – vai haver uma grande classe de cidadãos inúteis, isto é, cidadãos cujas competências não servem para nada.

E isto é grave. Porque há muitas coisas que precisam de solução e de cidadãos com competências para as fazer: canalizadores, carpinteiros, eletricistas e tantas outras profissões que, pelos vistos, são menos nobres do que ser um engenheiro da “água a ferver” que, se tiver sorte, vai trabalhar para a caixa do Continente - que é um trabalho tão digno como outro qualquer, claro, mas provavelmente não corresponde às expectativas iniciais de quem andou anos a estudar.

Hoje, um canalizador não tem problema nenhum em ganhar dinheiro.

Nos rankings das escolas públicas, não estamos muito bem classificados. É claro que, no nosso universo de estudantes, também temos jovens a sair para engenharias aeroespaciais e alunos com média de 20 valores. Temos de cuidar disso e reconhecer o mérito dos alunos, professores, pais, funcionários. Mas a verdade é que a generalidade dos nossos alunos está mais vocacionada para um ensino mais prático, mais técnico.

 

E Ílhavo, neste momento, não tem muitas respostas para esses alunos. 

Pois não, não tem. E o ensino técnico hoje é determinante para a atratividade dos territórios. Uma empresa só se instala se tiver, perto, gente para trabalhar. Se não tiver, não vem. Nós não temos, para já, um plano de expansão grande da zona industrial, nem muitos terrenos industriais disponíveis. Mas o Porto de Aveiro tem grandes empresas. E esse é um dos aspetos que queremos trabalhar.

A professora Eugénia Pinheiro tem uma vastíssima experiência como diretora de equipamentos, na gestão de escolas. Tem formação académica relevante, mas, sobretudo, tem experiência prática. E o Agrupamento de Escolas da Gafanha da Nazaré, que ela dirigiu, já tem esta vocação de criar dinâmicas de ensino associadas às empresas, muito ensino direcionado para o mundo empresarial. Nós temos é de intensificar essa capacidade, oferecer mais alternativas aos miúdos e fazê-los perceber que há ali um caminho que pode ser útil e interessante.

Hoje já temos essa relação com empresas. Temos empresas fantásticas, disponíveis para acolher alunos. Acho que há muitas oportunidades para as pessoas serem felizes, ganharem dinheiro, fazerem coisas de que gostam. Não é obrigatório viver uma vida inteira com o fardo de “os meus pais fizeram tanto esforço para me dar um curso” e, depois, viver frustrado porque aquilo que se estudou não serviu para o que se sonhou. As pessoas não são aquilo que sonharam ser. Nós temos de lhes dar ferramentas para que sejam felizes. As pessoas podem ser felizes de muitas maneiras. Não têm de ser doutores, engenheiros ou arquitetos. Podem ser outra coisa qualquer e serem felizes na mesma.

 

E quanto ao vereador Carlos António Rocha? Que papel é que lhe atribui neste desenho de equipa?

O Carlos tem outras competências que considero muito importantes: é o homem do trabalho na rua. Nós estamos aqui para servir as pessoas. Os grandes projetos são muito bonitos, mas o dia a dia das pessoas tem de nos interessar muito. É para isso que aqui estamos, sobretudo: para resolver os pequenos problemas da vida.

Encaramos isso em duas perspetivas. Uma é o trabalho que a câmara vai ter de fazer: obras, estradas, passeios, rotundas, infraestruturas mais estruturais. E outra são as pequenas obras, que têm a ver com a qualidade de vida: limpeza, higiene, respostas rápidas. Uma pessoa não pode ter um buraco à porta durante três meses à espera de que alguém vá pôr um bocado de alcatrão.

Nós quisemos ter um vereador operacional. Técnicos podemos contratar. Pessoas com estas características, com quase 20 anos de exercício autárquico, e ainda por cima com boa relação com outros autarcas, isso não se arranja tão facilmente.

Queremos estimular a participação e fomentar o crescimento das competências das juntas de freguesia. As juntas são subestimadas, muitas vezes não fazem aquilo que podiam fazer. Há câmaras que acham que, se a junta andar a limpar, por exemplo, as escolas, o presidente da junta anda a exibir-se. Eu não quero saber disso para nada.

Estamos aqui todos para servir os outros. Mas há quem tenha muito medo de que os outros sobressaiam. Eu não tenho medo nenhum. Gosto que os outros sobressaiam. O que queremos é servir as nossas pessoas. Se é o presidente da junta, o presidente da câmara, o vereador ou o funcionário, é irrelevante. O importante é o resultado final.

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Quais são as suas principais prioridades para este mandato?

Nós temos prioridades nas várias áreas e definimos quatro grandes linhas estratégicas, associadas a anos temáticos. E temos também aquilo a que chamamos propostas âncora.

O programa está muito organizado com terminologia náutica, alinhada com a nossa tradição. Faz todo o sentido nesta terra. Trabalhamos com múltiplos de quatro: quatro freguesias, quatro anos de mandato, quatro grandes linhas estratégicas, quatro ações-charneira.

Temos a intenção de criar um “ano municipal” para cada área estratégica: 2026 será o ano municipal da Educação; 2027, do Associativismo; 2028, da Responsabilidade Social e Ambiental e 2029, da Identidade Cultural. 

E depois temos projetos âncora relacionados com cada um destes temas.

 

O que o levou a adotar esta estrutura em anos temáticos? Que vantagens vê em dedicar cada ano a uma área específica?

Tem a ver com essa simbologia dos quatro: quatro freguesias, quatro anos, quatro linhas estratégicas. Ajuda-nos a organizar e a comunicar.

Em termos concretos: na Educação, queremos estabelecer uma parceria com a Fábrica da Ciência Viva para os programas TechLabs e Escola Ciência Viva. Já começámos a trabalhar com o professor Pedro Pombo, que, além de diretor da Fábrica, é nosso munícipe, mora na Coutada.

Na Ação Social, queremos rapidamente disponibilizar uma carrinha de serviço móvel para pequenas reparações domésticas. Para pessoas mais velhas ou com mobilidade reduzida, essas pequenas coisas são grandes problemas: mudar uma lâmpada, trocar uma tomada, ajeitar uma torneira. Essa carrinha também vai servir para um serviço de transporte a pedido.

Temos consciência de que o transporte público tem muitas limitações, sobretudo nos horários e na proximidade a quem mais precisa. Vamos criar uma espécie de “táxi social” para levar pessoas aos serviços de saúde, à Câmara, às Finanças, ao notário, até às compras, se for caso disso. Estudando sempre caso a caso, para perceber quem tem mesmo necessidade.

Naquilo a que chamamos valorização do capital humano, queremos criar um programa “Viver Melhor no Trabalho”. A felicidade no trabalho não é só um propósito nobre, é também uma questão de eficiência. Uma pessoa feliz é muito mais produtiva. Prefiro alguém que venha trabalhar e trabalhe quatro horas a sério do que alguém que esteja aqui oito horas e não trabalhe nenhuma. É a diferença entre ir ao treino ou ir treinar. Vamos trabalhar com plataformas e empresas que se ocupam da saúde social, financeira, mental. São áreas críticas.

 

Quantos trabalhadores tem o Município de Ílhavo? E como pretende envolver essa estrutura?

São cerca de 600 trabalhadores: aproximadamente 300 na estrutura base e outros 300 que resultam da transferência de competências na Educação, o pessoal não docente.

Queremos muito fazer coisas em comum com eles. Na sexta-feira, juntámo-nos com as chefias e passámos o dia no Luso, para partilhar ideias e para que todos soubessem o que é que cada um anda a fazer. As pessoas vivem na mesma casa, mas às vezes não fazem ideia do que o vizinho faz. Foi muito interessante.

Na segunda-feira, reunimos com todo o pessoal, na Casa da Cultura, para lhes explicar ao que vimos. Dissemos duas coisas básicas: transparência e compromisso. Eles não são obrigados a ter estudado o nosso programa, mas têm de saber que viemos para realizar esse programa. A partir de agora, esse programa é de todos. Têm de estar comprometidos com ele.

Oferecemos-lhes um caderninho a que chamámos “check-in” e que representa o início da viagem, assim como um “bilhete”, com um QR Code com uma “Mensagem do Capitão” (o presidente).

 

Falemos da Cultura. Um dos seus objetivos é transformar Vale de Ílhavo numa verdadeira Aldeia de Portugal. O que é que falta lá, neste momento?

Vale de Ílhavo é uma Aldeia de Portugal… mas, neste momento, é uma fraude. Não tem nada que justifique alguém vir de Aveiro — quanto mais de Santarém ou Braga — para visitar. E há pessoas que fazem esses roteiros. A classificação como Aldeia de Portugal pressupõe que haja um roteiro, uma experiência. Neste momento, se alguém for a Vale de Ílhavo e quiser comprar uma pada às três da tarde, não encontra.

Queremos criar um museu do pão, “Do grão à mesa”, com o circuito completo do pão. Há muitos fornos desativados, padeiras, alfaias, materiais que podem ser expostos. Não têm de os doar, basta emprestar em depósito. É fundamental que haja pelo menos uma padaria a funcionar, nem que seja só ao fim de semana. Uma aldeia do pão sem pão é um paradoxo.

Queremos também trabalhar a máscara do Cardador. A máscara ibérica hoje tem mercado: o Entrudo Chocalheiro de Podence é um bom exemplo. Mas a máscara do Cardador é riquíssima, mais rica até, porque cada máscara é diferente e conta uma história. Podemos criar intercâmbios com grupos de máscaras portugueses e espanhóis, sobretudo da Galiza, criar um festival, associar gastronomia, fazer de Vale de Ílhavo um destino real, não apenas uma placa na estrada.

 

No eixo do Associativismo, Desporto e Juventude, que projetos-âncora é que destaca?

Primeiro, o Gabinete de Apoio ao Associativismo. Um dirigente associativo, mesmo que seja advogado, sabe bem as dificuldades que as associações têm para cumprir obrigações fiscais, administrativas, legais. O modelo jurídico atual é quase um convite para ninguém querer ser dirigente. É um fardo enorme.

A maioria das associações não cumpre as obrigações, algumas nem sabem que elas existem. Ílhavo tem 82 associações. Não faltará trabalho para o jurista que vier para aqui.

No desporto, queremos transformar o antigo Centro de Formação da Senhora dos Campos, na Colónia Agrícola, num verdadeiro centro de estágio e, a prazo, num Centro de Otimização do Desempenho Desportivo e Pessoal. O edifício tem auditório, cozinha, um frigorífico americano que ainda está envolto em celofane, áreas de apoio. Está estruturalmente bom. Tem problemas com fibrocimento e o mobiliário está datado, mas, para centro de estágio, serve.

Vamos tentar que, no âmbito da entrega de património do Estado não utilizado às autarquias, aquele espaço passe para nós. A ideia é ter lá um nutricionista, um fisiologista, um preparador físico, um médico, e que essa estrutura sirva todos os clubes locais. Que os atletas possam ir lá às consultas, preparar-se melhor.

Os estágios também criam laços entre os miúdos, reforçam a ligação à equipa e à terra. E, no verão, podemos alugar o espaço a clubes de fora e gerar receita. Eu, na Federação de Basquetebol, sei bem o problema que é arranjar alojamento barato para escalões jovens. Em muitos sítios, os miúdos dormem em escolas, no chão. Aqui, em Ílhavo, teriam a vantagem de poder ir de bicicleta à praia, estar perto de Aveiro, ter a ria ao pé, fazer caminhadas. É um território com natureza, com piscinas, com campos desportivos.

O espaço à volta é enorme. Hoje temos o edifício, amanhã podemos pôr um minigolfe, uma piscina exterior. Há potencial para criar, a partir dali uma verdadeira cidade desportiva.

A médio prazo, temos de olhar para o pavilhão do Illiabum. O pavilhão não tem futuro tal como está. Inunda de 15 em 15 dias. A água estraga os pisos. Arranjá-lo implica alterações muito grandes. Não sei se vamos construir uma solução amanhã, mas temos de reconhecer que a atual solução tem problemas graves, estruturais. E também é preciso melhorar balneários, zonas sociais dos espaços desportivos. Isso é fundamental para fidelizar as pessoas aos clubes. Se os miúdos forem jogar ao Galitos ou à Esgueira e virem que os balneários e envolventes são melhores, vão comparar.

 

Na área da Inclusão e Responsabilidade Social, que propostas ganham prioridade?

Queremos criar parcerias e protocolos com instituições e empresas para acolher pessoas com deficiência ou em situação de maior vulnerabilidade no mercado de trabalho. Queremos um programa de apoio ao empreendedorismo jovem, com um sistema de crowdfunding para novos projetos. Nas incubadoras há ideias muito interessantes que depois morrem por falta de tempo, de apoio, de meios. Vale a pena apostar.

No Ambiente, Mobilidade e Planeamento Urbano, queremos ampliar a rede de ciclovias e fechar circuitos, criar um percurso integral no município. Queremos criar “bairros comerciais digitais”, trabalhar a digitalização do comércio local.

 

Por falar em comércio local, o centro de Ílhavo está, há muito, identificado como zona que precisa de revitalização. Do ponto de vista da Câmara, o que é possível fazer?

A câmara já fez algumas coisas com os operadores comerciais: campanhas de dinamização, apoio ao vitrinismo, à renovação de espaços. Mas a adesão foi fraquíssima. As pessoas vivem no limite da rentabilidade, não sobra muito para grandes exercícios de criatividade. Remodelar uma loja ou um café é caro.

Há dois fatores importantes: segurança e iluminação. Vamos começar a trabalhar nisso com seriedade. Já pedimos reunião ao Comando Distrital da GNR.

Depois, é preciso organizar eventos que tragam pessoas ao centro. Isso aumenta a probabilidade de consumo e a rentabilidade dos negócios. Queremos, por exemplo, um festival associado à gastronomia: a nossa e a dos países com quem temos geminações. Um festival internacional de gastronomias e petiscos.

E queremos tratar bem um produto que não tratamos bem: o choco. Estamos sempre muito focados no bacalhau, mas muito do choco frito que se come em Setúbal é pescado aqui, na nossa ria. Os pescadores de choco vivem tristes, e eu também, que gosto de choco, porque não há o culto do choco na nossa terra. Os outros vivem à nossa custa, gastronomicamente falando.

Queremos criar uma dinâmica no centro de Ílhavo, também porque muitas pessoas ficaram tristes com a saída do Festival do Bacalhau daqui. O festival começou aqui e depois foi deslocado para junto do mar — era a única forma de ganhar dimensão, é verdade. Mas há quem preferisse que ficasse pequenino e aqui. Temos de compensar isso com um conjunto de iniciativas no centro, para entusiasmar o comércio, qualificar a oferta e atrair novos operadores com olhares frescos. Alguns projetos – o restaurante Mozzarella, o café Gerações ou o bar Offside – deram certo, outros não. A livraria é um exemplo que não teve o destino que gostaríamos.

 

Refere-se à Xylocopa?

Sim. São realidades diferentes. As pessoas não têm esse tipo de cultura – mas não têm porque não as habituámos a ter.

Uma das coisas que queremos fazer, ligando Cultura e Educação, é inspirar-nos em exemplos como Paraty, no Brasil, ou Óbidos, em Portugal. Criar uma feira do livro com dimensão, uma semana dedicada aos livros.

Queremos usar o Cais Criativo da Costa Nova para criar uma espécie de residência literária. A ideia é ter um apartamento bom, que possa acolher escritores nacionais e internacionais durante 15 dias. Essa pessoa vem, instala-se, escreve, convida amigos, faz tertúlias – e essas tertúlias são abertas ao público.

As escolas podem frequentar esse espaço, conviver com esses autores. Ao fim de 10 anos, podemos ter uma nova geração que gosta de escritores, que conhece escritores, que cita escritores, que lê. E não tem de ser um mercado erudito. Qualquer cidadão pode ler: pode ser carpinteiro, canalizador, o que for, e gostar de livros. Isso só enriquece as pessoas.

Hoje, um pouco por todo mundo, as pessoas leem nos transportes. Nós podemos introduzir esse hábito. A Xylocopa, provavelmente, teve razão antes do tempo. O projeto era notável.

 

 

No turismo e na imagem identitária, falámos do pão e dos cardadores. E o bacalhau? Ílhavo é apontada como capital do bacalhau, mas quem vem de fora nem sempre encontra facilmente onde o comer.

É verdade. Não há um sítio “óbvio” para comer bacalhau em Ílhavo. Se alguém me perguntar: “Onde é que eu tenho a certeza de que como bacalhau?”, eu digo: no Batista, em Aveiro.

Queremos apostar num Centro de Interpretação da Pesca, Transformação e Gastronomia do Bacalhau na Gafanha da Nazaré, porque muitas das nossas histórias do bacalhau estão “deste lado”.

A ideia é recriar três armazéns de Saint John’s da Terra Nova, e, em cada um deles, ter um núcleo diferente: um museológico mais convencional; outro mais vanguardista, com ferramentas tecnológicas, inteligência artificial, experiências imersivas; e outro mais ligado à gastronomia. Por exemplo, permitir aos miúdos perceber como se navegava no século XVII sem instrumentos náuticos, como se viajava pelas estrelas.

Queremos também repensar o Festival do Bacalhau, melhorá-lo, torná-lo mais surpreendente para quem nos visita; queremos, por exemplo, que nas Tall Ships Races de 2027 haja uma ação em Ílhavo. Este ano será em Sines, mas há um conjunto de iniciativas que percorrem o país e queremos receber alguma coisa cá.

Ílhavo é um território privilegiado: tem a Costa Nova, a Praia da Barra, a Vista Alegre, o Museu Marítimo… muitos municípios não têm uma única coisa deste nível e têm de inventar. Nós ainda temos o pão, os cardadores, uma série de outros elementos que podemos juntar.

Temos de criar uma narrativa que ligue tudo isto, uma “história encantada”. Um passaporte turístico em que as pessoas vão carimbando as visitas aos sítios-chave e, no fim, recebem um prémio, seja ele qual for. E qualificar a oferta em cada ponto.

Na Costa Nova, queremos um Mercado de Natal à grande, ao nível do centro da Europa, não “estas coisas” tímidas que se fazem por cá. A Costa Nova, por si, já é um território encantado. Se estiver decorada como deve ser, pode ser um lugar lindíssimo para um mercado natalício, com barraquinhas, vinho quente, rabanadas.

Queremos trabalhar com a Associação de Artesãos Alheta, levá-los a ver o que se faz lá fora. Há coisas lindíssimas no artesanato de Natal.

Eu gosto muito de Natal. Tive Natais muito pobrezinhos, e agora vivo o Natal à grande. Tenho uma coleção de Pais Natais. Quando alguém viaja, traz-me um Pai Natal. Tenho uma coleção enorme. E vejo, por exemplo, na Alemanha, na Floresta Negra, aldeias que são quase “aldeias Natal”.

Na Vista Alegre também há um potencial enorme. Aquela zona operária antiga é lindíssima, apetece fazer ali qualquer coisa. Eles têm o presépio; podemos, em parceria, criar outras figuras do Natal — pastores, figuras tradicionais — em porcelana ou outros materiais. Se fizermos, por exemplo, quatro ou cinco figuras por ano, daqui a uns anos temos um acervo extraordinário e um destino de Natal de referência. Podemos ter dois grandes destinos natalícios: Costa Nova e Vista Alegre.

Outra coisa que gostaríamos é reforçar a relação com as IPSS na organização dos grandes eventos. Por exemplo: numa festa qualquer, em vez de bandeirinhas de papel, porque não bandeiras náuticas, em tecido ou croché, feitas pelas pessoas ao longo do ano? Antes de abrir a festa ao público, abrimos primeiro para elas: vêm ver o seu trabalho, comemos a primeira sardinha juntos, valorizamo-las. Mantemos as pessoas ativas, comprometidas com um processo.

 

Tem um plano para os primeiros 100 dias de mandato. O que pretende ver concretizado nesse período?

São basicamente as ideias-chave, as propostas-âncora. Voltamos aos múltiplos de quatro: chegamos ao número 24. São 24 compromissos muito claros.

Alguns exemplos: disciplinar o estacionamento nas praias, revertendo a solução da “espinha invertida”, que foi uma tentativa de resolver bem um problema, mas que acabou por não resultar. Não tenho nada contra quem tomou aquela decisão; não foi para prejudicar ninguém, foi para tentar melhorar. Mas não resolveu. Vamos corrigir;

Criar um parque em cada freguesia, plantando uma árvore por cada criança que nasça no concelho. Estamos a trabalhar com o registo civil: por cada criança, plantamos uma árvore com o nome da criança. Simboliza a criação de raízes na nossa terra. Vamos cuidar da árvore como queremos cuidar daquela criança. Criamos pequenos “pulmões verdes” e destinos para as próprias crianças: “Aquela árvore sou eu; nasci naquele dia”;

Criar uma aplicação móvel para que as pessoas possam reportar pequenos incidentes em tempo real, com georreferenciação e fotografia. O problema é sinalizado, vai para o serviço respetivo, e a pessoa recebe uma informação: “Esperamos resolver este problema em X dias”. Ao fim desse período, recebe a confirmação com fotografia ou uma explicação sobre o atraso. A aplicação terá também informação básica sobre estado do tempo, programação cultural, informação útil. Permitirá ainda pedir marcações de reuniões com os serviços da Câmara, sem ter de vir cá ou mandar e-mail; 

Criar o “Roteirómetro”, uma ferramenta online de acompanhamento e monitorização da execução material das propostas do programa. Uma linha para cada proposta, com o estado “não executado”, “em execução”, “executado”. Queremos, mais tarde, acrescentar o custo: quanto custa cada medida, quanto já foi gasto, para que as pessoas saibam onde é que andamos a gastar o dinheiro de todos; 

Criar provedores para as áreas da Educação, Juventude, Maioridade e Eficiência. Na campanha tivemos mandatários para estas áreas, que nos ajudaram a construir propostas. Agora vamos criar regulamentos para escolher provedores, que poderão ou não ser essas pessoas; 

Na ação social, reforçar a relação com as IPSS na organização de grandes eventos e implementar o programa “Viver Melhor no Trabalho” na estrutura municipal; 

Apresentar formalmente o programa do ano municipal de Educação, que será 2026; 

Reforçar as relações com as associações de pais, no sentido de encontrar soluções para os períodos não letivos. Temos a noção de que, para muitos miúdos, as refeições mais consistentes são as que comem na escola. Não podemos ter crianças 15 dias em casa, sem refeições em condições. Outros têm pais a trabalhar e nenhuma retaguarda.

Vamos criar, em parceria com entidades como o CASCI (que tem instalações na Colónia Agrícola) e com clubes, programas de acolhimento nas férias. Já existem programas de férias, públicos e privados, mas são caros e difíceis de conciliar. A ideia é um modelo mais simples de acolhimento: os miúdos estão lá, brincam, correm, comem, sujam-se, tomam banho ou vão tomar banho a casa. Um centro de acolhimento com quinta, pavilhões, bibliotecas, cinema. A preços simbólicos. Se tivermos 50 miúdos no CASCI a 20 euros cada, são mil euros. Para essas 50 famílias faz uma diferença enorme. Eu tenho bem noção do que é isto: fui presidente de associações de pais quase 20 anos. Sei o que são os problemas das famílias com os miúdos nas férias.

 

O que espera deixar como legado ao terminar o mandato?

Gostava de chegar ao final do mandato tendo cumprido o essencial das propostas com que me candidatei. Tenho a noção de que foi também por isso que as pessoas votaram em nós: pelas pessoas que compõem a equipa, pelo percurso que temos, e pelo simbolismo e criatividade de muitas das propostas.

Sabemos que algumas são ousadas, ambiciosas, talvez até demais. Mas queria muito que, no fim, o “Roteirómetro” estivesse praticamente concluído.

Tenho consciência de que, no caminho, não vamos fazer só isto. Há um conjunto de grandes atividades que a Câmara já desenvolve, com grande qualidade, que não há razão nenhuma para abandonar. Vamos somar estas novas propostas ao que já existe.

Sei também que vamos ter imprevistos, alguns com impacto muito violento na nossa estratégia. Hoje sabemos que os fenómenos climáticos extremos se intensificam e vão ser mais frequentes. Temos um território muito exposto, pela costa e pelo nível freático. Teremos problemas a esse nível.

Provavelmente vamos ter de nos desviar do cumprimento de alguns propósitos para responder a emergências. Isso é inevitável. O caminho não vai ser uma linha reta a unir dois pontos.

O que eu gostava é que, no fim, fôssemos recordados como pessoas que estiveram comprometidas com o processo, que fizeram o melhor que podiam e sabiam, e que saem daqui de consciência tranquila, porque deixam um legado.

Nós somos todos “idosos”, como algumas pessoas dizem (risos), e não temos ambições de usar isto para nos catapultar para outros cargos. Queremos que este seja, não diria o último capítulo, mas uma espécie de conclusão de um percurso de exercício de cidadania e de vida comprometida com a comunidade.

Podem surgir outros desafios, estaremos disponíveis para os encarar se fizer sentido, mas não é para isso que viemos para aqui. Não viemos para construir uma carreira política. Viemos para servir.

 

Para terminar, que mensagem deixa, em direto, aos munícipes ilhavenses neste arranque de novo ciclo autárquico?

Gostava de lhes dizer que viemos para aqui com o mesmo entusiasmo com que vivemos toda a nossa vida até hoje. Com o entusiasmo com que construímos este programa. Viemos trazer ideias criativas, originais, modelos diferentes de fazer bem à vida das pessoas. E que, à semelhança dos autarcas que nos antecederam, estamos profundamente comprometidos com um exercício de rigor e de exigência. Para ajudarmos cada ilhavense a ser mais feliz.

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