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Uma estória bonita de santa obstinação…

Opinião Ler mais tarde

Manuel Pacheco* 

 

Durante a primeira vaga da reformulação e arranjo dos actuais altares, em limpeza e arrumação dos baixos da hexagonal Capela de S. Gonçalinho, os saudosos “sic” João Artur “Vassourinha” e António Barroco Máximo “António do Gato Preto” encontraram, em 1983, uma peça tosca em madeira que imaginaram de imediato ser uma figura do Santo casamenteiro.

O “pau” – um pedaço tosco de madeira - foi entregue pela Comissão de festas ao Sr. Fânzeres, artesão de Braga, que trabalhava o altar principal, e que de imediato fez questão de o levar para ser reconstruído sem custos nos artesãos daquela cidade especializados em talha, de modo a dar-lhe a vida e a tornar-se numa imagem de rara beleza.

De volta a Aveiro e à Capela do Bairro da Beira Mar gerou-se controvérsia com o Pároco Pe. Manuel António Fernandes que, por imposição eclesiástica, observou não poder coexistir com outra imagem de S. Gonçalinho dentro do mesmo espaço; nesta conformidade foi o Santo levado para a Igreja matriz e aí residiu durante alguns meses.

Inconformados com aquela restrição do não usufruto devoto da imagem, outros mordomos mais afoitos - e de entre eles: o António Luís “Piaca”, José Pinho “Patota”, Bruno Ferreira, António Marques e o Luís António “Luíla” - foram à Igreja de S. Gonçalo e, junto do Prior Fernandes, teimosamente resgataram a imagem.

Em reunião da respetiva Comissão de Festas a que todos pertenciam, foi deliberado unanimemente entregar a imagem à Comissão presidida pelo carismático Rolando Neves dos Santos, Juiz que assumiu o compromisso de realizar a próxima festa em honra de S. Gonçalinho, e incumbi-la de lhe encontrar lugar estável e digno de devoção, que por bem entendessem.

Assim, aquela Comissão de 1993/4 faz peregrinar, mês a mê,  a imagem do S. Gonçalinho - que carinhosamente apelidaram de “Vinte e Sete” - pelas casas dos Mordomos para que cada família possa orar ao seu “Menino” e fazer junto dele as suas preces, numa prática e tradição que remonta àquele ano, tornando-se este um número mágico, que tem inspirado generosas e notáveis iniciativas tais como: a requalificação da Capela (2011) e a aquisição-construção da Casa de apoio a S. Gonçalinho (2012).

Cruzados vários testemunhos sobre esta curiosidade, ainda há quem afirme que o achamento não foi bem assim, pelo que estes factos, relatados de memória, ficarão no domínio das muitas lendas e bonitas estórias sobre o S. Gonçalinho, contadas por todos aqueles que nos ensinaram a fazer a Festa.

 

* Autor aveirense e antigo juiz da Mordomia de São Gonçalinho

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