A apresentação pública do Projeto de Qualificação do Bairro da Beira-Mar, que se realizou ao princípio da noite de quinta-feira na antiga capitania, teve casa cheia, principalmente de comerciantes e moradores preocupados com uma intervenção que o presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Luís Souto Miranda, definiu como “profunda” e “fortemente impactante”.
E foi por causa dessa previsão, impactante, que a autarquia decidiu, de acordo com o edil, “apresentar o projeto publicamente”, mesmo não estando à espera de “uma adesão tão grande”. “Está prevista uma obra que por si só, tem de mudar a vida das pessoas. Da cidade. Dos aveirenses. Não vamos, como sempre dissemos, romper com o que estava previsto, muito menos fazer tábua rasa, mas pode-se fazer ajustamentos, pois o projeto não está 100% fechado”.
Poente, o início
Num projeto global, que contempla um investimento total entre os 13 e os 14 milhões, de euros, a primeira fase deverá arrancar, segundo estimativas da autarquia, o mais tardar no segundo semestre de 2027. “Ainda este ano vamos abrir o concurso para a obra, esperando que não haja peripécias. A expetativa é que até meados do próximo ano se inicie a zona Poente, a toda a força. O custo estimado desta fase é de, sensivelmente, três milhões de euros”, avança Luís Souto Miranda.
A apresentação, a cargo da empresa responsável pelo projeto, teve em Paula Teles e Bruno Sousa os porta-vozes. Com a experiência, em Aveiro, de ter idealizado a nova cara da Rua da Pega e da Avenida 25 de Abril, Paula Teles não se fez rogada nas palavras, nem na perspetiva ambiciosa de mudar, completamente, o paradigma atual.
“O grande objetivo deste projeto é o de voltar a ter espaço público para socializar. Precisamos, cada vez mais, de ter lugares para as pessoas estarem, para terem momentos de pausa. Vamos incidir na reorganização do espaço público, para se ter mais área para andar a pé, onde o carro também exista, mas sem ser à custa de uma pessoa idosa, de uma mãe que quer passear o seu bebé.
Coexistência, a palavra-chave
A exemplo do que já existe – com mais ou menos sucesso – na Avenida Lourenço Peixinho e na Rua do Gravito, a palavra-chave do novo projeto é a coexistência. Entre crianças que querem jogar à bola, turistas que passeiam, aveirenses que aproveitam os dias de sol, e carros que querem passar em todo o lado.
“Os carros vão continuar a ter o seu espaço, com regras, dentro de uma reorganização do espaço público, com mais espaços de coexistência. Nada é disruptivo neste projeto e acreditamos muito na mudança através do exemplo. As pessoas vão ter vergonha de andar de carro onde estarão as crianças a brincar. É o chão da cidade que vai fazer com que isso aconteça”, explica Paula Teles.
A opção clara, até aqui, “pelo carro em detrimento do peão” é, para Paula Teles, o principal problema da zona da Beira-Mar. “Está muito desarrumado e em excesso”, explica. Daí que os princípios orientadores do projeto sejam claros: “Humanização das ruas e descarbonização; qualificação do espaço público; valorização dos elementos diferenciadores e, principalmente, resolução de problemas/conflitos de circulação rodoviária e da descontinuidade da rede pedonal e ciclável”.
“Quem tem o desafio das cidades, sabe que é no espaço público que temos a hipótese de nos conectarmos. É obrigatório criar momentos de pausa, fazer com que a nossa rua, a nossa cidade, seja a nossa casa. Daí também a necessidade de ter mais árvores, mais zonas verdes. É o que faremos, onde for possível”, conclui a responsável.
Rua a rua, ponto a ponto
Praticamente no final da apresentação, as respostas mais prementes foram dadas a todos os presentes. Não só quando está prevista começar, mas sobretudo de que forma os constrangimentos serão ultrapassados. Paula Teles explica que “está tudo pensado” e Bruno Santos garantiu “que o projeto está delineado” com todo o cuidado.
“São entre 64 e 69 ruas que serão intervencionadas. Foi uma loucura fazer este projeto, mas está tudo rigorosamente planeado, para que cada pessoa, cada comerciante, tenha o mínimo de entropia na sua vida. A prioridade é para quem cá está, para quem cá reside”, garante Bruno Sousa.